Património, família, religião e sociedade no século XIX

Wilhelm Peters (1817-1903)
Na Aldeia do Carvalho da segunda metade do século XIX, dois mundos começavam a encontrar-se.
Um era antigo. O das terras, dos foros, das casas, das heranças, da religião e das rígidas convenções que regulavam o casamento e a legitimidade dos filhos.
O outro anunciava a modernidade. Era feito de fábricas, trabalhadores assalariados, máquinas, sociedades comerciais, seguros, rodas hidráulicas e caldeiras a vapor.
João de Almeida Barros pertenceu aos dois.
Antes de aparecer como fabricante na Aldeia do Carvalho, já era conhecido na Covilhã como homem de negócios, possuidor de património urbano e agrícola, ligado a propriedades em diferentes lugares e participante ativo na vida religiosa, económica e cultural da cidade.
Na década de 1870 associou-se também à transformação industrial da Aldeia do Carvalho, onde instalou uma das primeiras fábricas de lanifícios conhecidas da povoação.
Mas os documentos conservaram uma segunda história.
Ao lado do fabricante aparece Jerónima das Neves.
E Jerónima não surge inicialmente como sua mulher.
Surge como sua criada.
Entre ambos estabeleceu-se uma relação que atravessou anos, diferenças de condição social, adultério, filhas nascidas antes do casamento, a Roda dos Expostos e as normas da Igreja.
Entretanto, a fábrica ardeu.
A primeira mulher de João morreu.
O património conjugal foi inventariado e repartido.
A fábrica começou a ser reconstruída.
E, em 1894, encontrando-se João gravemente enfermo, o fabricante e a antiga criada casaram finalmente dentro da própria casa.
A história parece saída de um romance oitocentista.
E há ainda uma circunstância singular: um dos homens mais próximos daquele universo familiar, D. Manuel de Albuquerque Júnior, cunhado de João, tornou-se Dom Prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães, foi posteriormente caracterizado como um dos doutrinadores do renascimento católico português e esteve intelectualmente ligado a Camilo Castelo Branco.
Camilo não escreveu esta história.
Mas poderia quase tê-la escrito.
Antes da fábrica: João de Almeida Barros na Covilhã
João de Almeida Barros não surge subitamente nos documentos quando funda a fábrica.
Há sinais anteriores da sua presença na vida covilhanense.
Uma das fontes mais interessantes é a narrativa do juiz desembargador José Avelino Gonçalves, que recupera acontecimentos ligados à sociedade covilhanense oitocentista, na sua obra, “Estórias de um Arquivo Judicial”
Num episódio que remonta a 1865, João d’Almeida Barros aparece à frente de cerca de cinquenta homens que o autor identifica como «lazaristas».
A expressão deve ser compreendida dentro das intensas disputas religiosas da época. Na Covilhã, como noutras partes do país, os confrontos entre diferentes sensibilidades católicas, liberais e anticlericais ultrapassavam largamente as paredes das igrejas.
A referência coloca João num ambiente de forte mobilização religiosa, próximo dos setores católicos conservadores que tiveram também expressão em figuras como os padres Grainha.
Não estamos ainda perante o João fabricante.
Estamos perante um homem já socialmente presente na cidade.
O «negociante abastado»
Poucos anos depois, em 1873, o juiz Avelino volta a colocar João de Almeida Barros no centro de um episódio local.
Desta vez apresenta-o como um:
«negociante abastado da cidade».
A expressão é particularmente importante.
Mostra que, antes da instalação conhecida da fábrica na Aldeia do Carvalho, João já dispunha de uma posição económica suficientemente sólida para ser reconhecido como homem de posses e de negócios.
É também nesse contexto que surge um dos episódios mais pitorescos da sua biografia.
João recuperara de uma doença grave e decidiu promover uma celebração em honra de Nossa Senhora da Saúde.
A festa reuniu música, comida e foguetes.
Mas os foguetes foram lançados sem a necessária autorização administrativa.
Aquilo que começara como manifestação religiosa e festiva acabou por provocar um conflito com as autoridades e uma tentativa de prisão do próprio João, numa sucessão de acontecimentos que Avelino narra com particular vivacidade.
O episódio é mais importante do que parece.
Revela simultaneamente o João religioso, o João abastado, capaz de financiar uma celebração, e o João com suficiente estatuto para se confrontar com a autoridade administrativa local.
Terra, casas e património
A fábrica nunca foi toda a riqueza de João de Almeida Barros.
A documentação patrimonial que temos vindo a reunir revela um homem com interesses económicos diversificados.
Existiam casas na Covilhã, prédios e habitações na Aldeia do Carvalho, terrenos agrícolas, propriedades de regadio e sequeiro, árvores, dependências rurais e direitos fundiários fora da povoação.
Isto é fundamental para compreender a sua posição social.
João não passou de simples artesão a industrial.
Quando entrou na indústria já pertencia a um universo de proprietários e negociantes.
Enfiteuta na Boidobra
A documentação coloca-o também como enfiteuta na Boidobra.
O termo é importante e não deve ser confundido com propriedade plena.
Num contrato enfitêutico existiam dois direitos sobre o mesmo prédio: o senhorio detinha o domínio direto e o enfiteuta o chamado domínio útil, podendo explorar e transmitir esse direito nas condições estabelecidas, normalmente mediante o pagamento periódico de um foro.
A presença de João como enfiteuta mostra que os seus interesses económicos abrangiam também a agricultura e a terra fora da Aldeia do Carvalho.
Assim, antes mesmo de olharmos para a fábrica, encontramos um homem cuja economia combinava comércio, imóveis, propriedades agrícolas e formas tradicionais de exploração fundiária.
Casas na Covilhã e propriedades agrícolas
O inventário familiar que viria a ser elaborado em 1891 confirma a dimensão deste património.
Entre os bens aparecem casas na Covilhã, algumas com dependências e espaços anexos que ultrapassavam largamente uma simples habitação modesta.
Surgem igualmente terrenos agrícolas e propriedades na área da Aldeia do Carvalho.
Um exemplo particularmente importante é o prédio identificado no Ribeiro dos Barreiros.
Esta leitura deve ser conservada cuidadosamente porque Ribeiro dos Barreiros não é simplesmente outra forma de escrever Rua dos Barreiros.
Trata-se de um contexto patrimonial rural que incluía terras e estruturas ligadas à agricultura.
A documentação descreve terrenos de regadio, terras de centeio ou centeeira, matos, árvores, casa e dependências rurais.
Barreiros e Andurão aparecem na investigação como áreas contíguas, enquanto a cadeia patrimonial da Rua do Espírito Santo constitui uma realidade distinta e não deve ser misturada com aquela propriedade.
Os Barreiros: um núcleo familiar
Os Barreiros tornam-se especialmente interessantes quando deixamos de olhar apenas para João.
Aquele espaço aparece ligado a diferentes membros das famílias Barros e Albuquerque.
A investigação mostra que algumas casas foram posteriormente repartidas fisicamente, incluindo casos em que uma parede mestra passou a separar partes com proprietários diferentes.
Por isso, uma escritura que mencione uma casa nos Barreiros pode referir apenas uma metade ou fração e não necessariamente o edifício inteiro que hoje imaginamos.
Este detalhe tornou-se essencial para interpretar corretamente as transmissões posteriores.
E é também nos Barreiros que encontramos outro protagonista desta história.
D. Manuel de Albuquerque Júnior
Manuel de Albuquerque Júnior era irmão de Maria da Conceição Albuquerque, a primeira mulher de João de Almeida Barros, e portanto cunhado de João.
A documentação patrimonial liga-o igualmente ao núcleo da rua / ribeiro dos Barreiros, embora a cadeia completa das transmissões entre determinadas casas, Barreiros e Andurão continue a exigir cruzamento fino entre escrituras e matrizes.
A sua vida, porém, levaria-o muito longe da Aldeia do Carvalho.
Nascido na Covilhã em 18 de dezembro de 1843, Manuel de Albuquerque Júnior seguiu a carreira eclesiástica e foi nomeado Prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães, por carta de 6 de setembro de 1885, tomando posse no dia 28 do mesmo mês. Permaneceu no cargo até à extinção da Colegiada em 1912, ano em que faleceu.
A instituição é historicamente conhecida como a Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, uma das instituições religiosas de maior prestígio de Guimarães.

Cliché da colecção da Foto Guedes, pertencente ao Arquivo Municipal do Porto
D. Manuel não foi apenas um administrador eclesiástico.
Décadas mais tarde, o filósofo e historiador José Pinharanda Gomes dedicou-lhe um estudo significativamente intitulado D. Manuel de Albuquerque, presbítero egitaniense, Dom Prior de Guimarães e doutrinador do renascimento católico. A própria bibliografia académica conserva essa caracterização.
A expressão deve ser entendida como uma caracterização historiográfica de Pinharanda Gomes, mas é reveladora da importância atribuída à atividade intelectual e doutrinária do sacerdote.
D. Manuel pertenceu a uma geração de eclesiásticos empenhada em reafirmar intelectualmente o catolicismo perante os novos movimentos filosóficos, políticos e religiosos do século XIX.
Publicou e interveio em questões religiosas, e a sua obra inclui títulos de caráter apologético como O Protestantismo e A Verdadeira Igreja de Cristo.
A religião, portanto, não era um elemento lateral na família Albuquerque.
Era um dos seus eixos centrais.
João, o teatro e a vida cultural da Covilhã
João de Almeida Barros também não se limitou à religião, à agricultura e ao comércio.
Em 1876 o seu nome aparece associado à Companhia Edificadora do Theatro Covilhanense, formada para promover e financiar a construção de um novo teatro na cidade.
É preferível descrevê-lo como subscritor ou acionista fundador da companhia edificadora, em vez de lhe atribuir isoladamente a fundação do teatro.
Em 1876, João de Almeida Barros figurava entre os acionistas da Companhia Edificadora do Theatro Covilhanense, sociedade constituída para promover a construção de uma casa de espetáculos na Covilhã. A relação nominal dos subscritores foi publicada no Diário do Governo de 22 de setembro de 1876. A companhia dispunha de um capital de 10 contos de réis, dividido em mil ações de 10$000 réis.
Mas a relevância do facto permanece.
João integrou o grupo de homens da Covilhã que colocou capital num projeto cultural urbano.
A personagem torna-se, assim, mais complexa.
O homem ligado às mobilizações religiosas era também investidor num teatro.
O proprietário rural era negociante.
E o negociante tornar-se-ia fabricante.
Não existiam compartimentos estanques entre estes mundos.
A industrialização chega à Aldeia do Carvalho
É por volta de 1875 que encontramos a fábrica de João de Almeida Barros associada à Aldeia do Carvalho.
Ela não foi uma das primeiras fábricas portuguesas, nem uma das primeiras fábricas da região da Covilhã.
A indústria de lanifícios covilhanense tinha uma história muito mais antiga.
Mas à escala da povoação, João pertenceu claramente à primeira geração fabril.
Os dados reunidos a partir do Inquérito Industrial de 1881 colocam em 1873 o estabelecimento de Espiga Barata & C.ª; cerca de 1875 surge João de Barros; em 1876 aparece Custódio & Silva; e em 1877 João Nunes da Costa.
Em apenas alguns anos, a Aldeia do Carvalho começou a transformar-se num pequeno núcleo fabril.
A fábrica de João fazia parte dessa mudança. A documentação baseada no Inquérito Industrial de 1881 atribui-lhe 26 operários, incluindo mulheres e menores, e identifica as operações de cardagem, fiação, apisoamento e acabamento.
1888: o Estado reconhece a fábrica
Em 1888, João aparece com o seu nome completo numa relação oficial do serviço de selagem dos tecidos.
A Aldeia do Carvalho possuía o Posto de Selagem n.º 17, e um dos estabelecimentos abrangidos era:
n.º 70 — João de Almeida Barros — lanifícios.
A fonte estabelece também a ponte entre o «João de Barros» das referências industriais anteriores e João de Almeida Barros.
Documentação judicial posterior identifica-o ainda como:
«fabricante e commerciante matriculado».
E regista empréstimos destinados a responder a necessidades e despesas comerciais e fabris.
O retrato económico torna-se assim coerente.
Proprietário, comerciante, investidor e finalmente industrial.

1890: o fogo
Em 1890, a trajetória industrial sofreu uma rutura brutal.
A fábrica de João de Almeida Barros foi atingida por um grande incêndio,
entre a meia-noite e a uma da manhã de 24 de junho de 1890,
Os habitantes da pequena povoação não quizeram auxiliar os bombeiros d’aquella cidade […] com receio de que a machina rebentasse.

Domingo, 3 de agosto de 1890
As notícias publicadas em julho e agosto desse ano descrevem o estabelecimento como destruído e avaliaram os prejuízos em cerca de:
25 contos de réis — 25:000$000 réis.
A fábrica estava segurada pela companhia espanhola La Unión y El Fénix Español.

Sede da seguradora La Unión y el Fénix Español
Fundada en 1879 após a fusão das seguradoras La Unión (1856) y El Fénix Español (1864).
A dimensão do valor anunciado mostra que não se tratava de um estabelecimento irrelevante.
A estimativa poderia englobar edifícios, máquinas, matérias-primas, produtos armazenados e outros prejuízos.
Ainda não conhecemos o valor exato da apólice nem a indemnização efetivamente paga.
Encontrar o processo da seguradora continua a ser uma das linhas de investigação mais promissoras.
Maria Rita Bragança
O incêndio deixou também uma consequência humana.
A imprensa relatou a morte de Maria Rita Bragança, com 97 anos, que, alarmada pelo fogo, se precipitou de uma janela.

edição n.º 1851, de domingo, 20 de julho de 1890
O episódio ajuda-nos a compreender a escala comunitária do desastre.
A fábrica não era um recinto distante.
Estava integrada na povoação e na vida das pessoas.
Quando ardia, não ardia apenas um investimento particular.
A aldeia assistia.
1891: morre Maria da Conceição Albuquerque
Pouco depois do incêndio surgiu uma nova rutura.
Em 12 de maio de 1891, morreu Maria da Conceição Albuquerque, primeira mulher de João de Almeida Barros.
A sua morte deu origem ao documento que hoje constitui talvez a fonte mais importante de toda esta investigação:
o inventário judicial de 1891.
O processo encontra-se no Arquivo Distrital de Castelo Branco, no fundo do Tribunal Judicial da Comarca da Covilhã, com a referência:
João foi constituído cabeça de casal.
O inventário abriu-nos uma verdadeira janela sobre a dimensão económica da família.
O total bruto dos bens inventariados ultrapassava 42 contos de réis, ficando o montante partível, depois dos ajustamentos e encargos, em cerca de 37 contos de réis.
Era um património considerável.
Casas, terras, fábrica e herdeiros
O inventário mostra que o património não se resumia à fábrica.

A página regista, entre outros bens, uma junta de bois e uma mula, seguindo-se a descrição das propriedades que integravam o património familiar.
Fonte: Arquivo Distrital de Castelo Branco, Tribunal Judicial da Comarca da Covilhã, inventário de 1891, PT-ADCTB-JUD-TJCCVL-A-002-01003.

Continuação das verbas imobiliárias do património de João de Almeida Barros e Maria da Conceição Albuquerque, com imóveis situados na Aldeia do Carvalho e respetivas confrontações e avaliações.
Fonte: Arquivo Distrital de Castelo Branco, Tribunal Judicial da Comarca da Covilhã, inventário de 1891, PT-ADCTB-JUD-TJCCVL-A-002-01003.

O documento regista uma caldeira a vapor, uma roda hidráulica e diversos equipamentos de ultimação de lanifícios já em funcionamento. Avaliação: 8:040$000 réis.
Fonte: Arquivo Distrital de Castelo Branco, PT-ADCTB-JUD-TJCCVL-A-002-01003.

Incluía casas, propriedades rurais, terrenos, direitos fundiários e diferentes bens distribuídos pela Covilhã e Aldeia do Carvalho e outras partes da região e do país.
Também mostra a dimensão da família do primeiro casamento.
Existiam vários filhos e herdeiros, pelo que, depois da morte de Maria da Conceição, era necessário distinguir meações, quinhões e adjudicações.
Isto altera uma ideia demasiado simples que poderíamos ter da «fábrica de João».
Publicamente era a fábrica de João de Almeida Barros.
Mas juridicamente o património industrial encontrava-se inserido numa estrutura conjugal e familiar.
Depois da morte da mulher, a fábrica também entrou na lógica das partilhas.
A descoberta decisiva: «em reconstrução»
E é neste inventário, elaborado depois do incêndio, que encontramos uma das expressões mais importantes de toda a história.
A fábrica aparece descrita como:
«em reconstrução».
Isto demonstra que o incêndio de 1890 não encerrou imediatamente a aventura industrial.
Houve uma tentativa concreta de reerguer o estabelecimento.
A fábrica não aparece apenas como terreno queimado.
Continuavam a existir estruturas, máquinas e instalações industriais.
A reconstrução estava em curso.
A roda hidráulica e a máquina a vapor
O inventário permite-nos praticamente entrar na fábrica.
Entre os equipamentos aparecem uma roda hidráulica e uma caldeira a vapor.
Esta combinação é historicamente fascinante.
A água pertencia à longa tradição fabril serrana.
A localização junto às ribeiras permitia utilizar a corrente como força motriz.
O vapor representava outro tempo.
Permitia maior autonomia energética e integrava o estabelecimento na modernização industrial da segunda metade do século XIX.
Na fábrica de João coexistiam, portanto, dois séculos tecnológicos.
A ribeira e o vapor.
As máquinas e a tinturaria
A documentação menciona também diferentes equipamentos ligados ao tratamento dos lanifícios, entre eles lavadeira, batano, percha, ventoinha, escolhedeira e prensa.
Verba n.º 32 — Fábrica
N.º 32
Uma fabrica e seu reduto está em ruinas, estando a casa da dita fabrica em reconstrução, tendo uma caldeira a vapor, uma roda hydraulica, em cuja fabrica laboram já uma lavadeira, um batano, uma percha, uma ventoinha, uma escovadeira, uma prensa de ferro com as [rasura] digo as competentes platinas de ferro, a partir pelo nascente com Manuel Correia Duarte, do poente e sul com a ribeira publica e pelo norte com João da Silva, no sitio do Carvalho, limite de Aldeia de Carvalho, avaliado tudo pelos louvados em oito contos e quarenta mil reis.
Na margem está efetivamente o valor:
8:040$000 réis.
Junto da fábrica existia ainda uma tinturaria.
A fábrica foi avaliada no inventário em:
8:040$000 réis
Verba n.º 33 — Tinturaria
Esta está ainda mais nítida:
N.º 33
Uma caza contigua á fabrica, denominada a do tinte, com uma dorna de cobre, uma caldeira grande tambem de cobre e outra mais pequena, e mais utensilios pertencentes á tinturaria, avaliada pelos louvados em seis centos mil reis.
e a tinturaria em:
600$000 réis.
Em conjunto representavam 8:640$000 réis.
Esses números não devem ser diretamente comparados com os 25 contos de prejuízo anunciados depois do incêndio, porque correspondem a momentos e critérios diferentes.
Em 1891 estamos perante a avaliação de bens num estabelecimento já destruído e em reconstrução.
Onde estava a fábrica?
O inventário situa o estabelecimento no chamado sítio do Carvalho e fornece confrontações que incluem a ribeira pública.
Essa proximidade confirma a lógica da roda hidráulica.
Mas a identificação predial exata continua aberta.
Jerónima das Neves
É neste mundo de propriedades, comércio e indústria que surge Jerónima das Neves.
A documentação apresenta-a, num determinado momento da sua vida, como criada de João de Almeida Barros. Esse dado é importante porque permite perceber a distância social que inicialmente existia entre ambos: de um lado, um negociante, proprietário e fabricante; do outro, uma mulher que trabalhava ao seu serviço.
Mas seria redutor deixar Jerónima definida apenas por essa condição.
Os documentos administrativos e paroquiais raramente nos dizem muito sobre o quotidiano destas mulheres, sobre as tarefas que desempenhavam ou sobre o lugar que ocupavam nas casas onde trabalhavam. Também não sabemos, por enquanto, se Jerónima teve alguma função ligada à fábrica de João de Almeida Barros. Essa possibilidade existe, mas não está documentalmente demonstrada e deve, por isso, permanecer como hipótese.
O que os registos permitem afirmar é que Jerónima viria a ocupar um lugar central na vida de João. Tornou-se sua companheira, mãe das suas filhas e, mais tarde, sua esposa.
A sua trajetória atravessa algumas das fronteiras sociais mais rígidas do Portugal oitocentista: classe, casamento, legitimidade dos filhos, religião e reputação familiar.
Jerónima não deve, por isso, aparecer apenas como personagem secundária da vida do fabricante. Ela é uma das protagonistas desta história.
Os documentos não conservaram a sua voz, nem nos permitem saber como viveu os anos anteriores ao casamento ou de que forma enfrentou as convenções sociais do seu tempo. Mas permitem reconstruir parte do seu percurso: de mulher ao serviço de João de Almeida Barros a mãe de uma nova linhagem familiar, formalmente reconhecida no casamento de 1894.
É precisamente essa transformação que dá à sua história uma importância própria.
Por detrás das fábricas, das propriedades, dos inventários e dos negócios existiam vidas que quase nunca deixavam muitas palavras nos arquivos — mas que nem por isso foram menos decisivas.
Adultério e promessa de casamento
A situação era, contudo, particularmente delicada.
João era casado com Maria da Conceição Albuquerque quando a relação com Jerónima se desenvolveu.
A documentação eclesiástica relacionada com o posterior casamento remete para adultério e para uma promessa de casamento.
No direito matrimonial católico da época, estas circunstâncias podiam criar obstáculos canónicos que necessitavam de intervenção e dispensa eclesiástica.
Não era, portanto, apenas uma questão de reputação.
A vida privada estava juridicamente condicionada pela Igreja.
E isso é especialmente significativo quando recordamos a própria ligação de João aos meios católicos covilhanenses.
Guilhermina e a Roda dos Expostos
Uma das filhas da relação, Guilhermina, ficou ligada à instituição da Roda dos Expostos.
A Roda permitia entregar uma criança sem contacto direto com quem a recebia e, muitas vezes, sem identificação pública da mãe ou da família.

As razões podiam ser variadas: pobreza, abandono, impossibilidade material de criar a criança ou o estigma associado a nascimentos fora do casamento.
Neste caso, sabemos que a criança viria mais tarde a ser reconhecida por João de Almeida Barros.
Essa passagem entre o estatuto de exposta e o posterior reconhecimento paterno é um dos elementos humanos mais fortes desta história.

12 de agosto de 1894
Finalmente, em 12 de agosto de 1894, João de Almeida Barros e Jerónima das Neves casaram.

12 agosto de 1894
Livro de Registos de Casamento – Paróquia de de Aldeia do Carvalho
As circunstâncias tornam o episódio especialmente marcante.
João encontrava-se gravemente doente e o casamento foi celebrado em sua casa, e não na igreja.
O assento apresenta-o enfermo e sacramentado.
Nesse casamento foram reconhecidas como filhas Guilhermina e Maria da Conceição, para todos os efeitos legais.
É importante acrescentar uma pequena precisão: o próprio assento diz que o casamento ocorreu na casa de João, mas não identifica necessariamente essa casa como a Rua dos Barreiros. Essa localização resulta do cruzamento com a investigação patrimonial e deve continuar a ser apresentada como tal.
A imagem, mesmo sem exagero literário, é poderosa.
Um fabricante doente de cama.
A mulher que anteriormente fora sua criada.
Um sacerdote.
As filhas.
E um casamento que regularizava juridicamente uma relação iniciada muitos anos antes.
D. Manuel, os Barreiros e a religião
Aqui, a história regressa à primeira mulher.
O irmão de Maria da Conceição, D. Manuel de Albuquerque Júnior, não era apenas um parente distante.
Além da sua ligação patrimonial ao núcleo familiar dos Barreiros, tornar-se-ia uma figura religiosa de relevo nacional.
A partir de 1885 exerceu como Prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães, até 1912.
Foi também uma personalidade intelectualmente ativa no catolicismo português.
A caracterização de Pinharanda Gomes como «doutrinador do renascimento católico» ajuda a enquadrar o seu lugar nesse movimento.
Isso dá uma dimensão ainda mais interessante à família.
O cunhado de João encontrava-se no centro da renovação intelectual católica, enquanto João atravessava pessoalmente uma situação conjugal que necessitaria de solução canónica.
Mais uma vez, religião pública e vida privada cruzam-se de forma muito mais complexa do que uma leitura simplista permitiria.
D. Manuel e Camilo Castelo Branco
É também através de D. Manuel que encontramos a ligação mais concreta ao universo de Camilo Castelo Branco.
Em 1895 foi publicada a obra D. Fr. Bartholomeu dos Martyres e a usurpação dos Filippes, associada a uma polémica histórica que incluía cartas de Camilo.

D. Manuel de Albuquerque esteve ligado à publicação e prefaciou o volume.
A investigação aponta ainda para correspondência entre ambos, cuja documentação individual deve ser apresentada quando a referência arquivística estiver completamente fechada.
Isto não significa que Camilo tivesse conhecimento da relação entre João e Jerónima.
Não temos qualquer prova disso.
Mas significa que a expressão «quase camiliana» adquire uma ironia histórica particularmente sugestiva.
A história familiar contém muitos dos temas característicos do universo camiliano e, simultaneamente, um dos seus protagonistas familiares estava efetivamente em contacto intelectual com Camilo.
Uma sequência digna de romance
Entre 1890 e 1894, a vida de João de Almeida Barros sofreu uma extraordinária concentração de acontecimentos.
Em 1890, a fábrica arde.
Em 1891, morre Maria da Conceição Albuquerque.
Abre-se o inventário, avalia-se um património superior a dezenas de contos de réis, repartem-se casas, terras e direitos, e a fábrica aparece em reconstrução.
Três anos depois, João está gravemente enfermo.
E casa em casa com Jerónima das Neves, sua antiga criada, reconhecendo as filhas.
Ao mesmo tempo, a família da primeira mulher liga esta história a um importante dignitário e intelectual católico e, por essa via, ao próprio universo de Camilo Castelo Branco.
Não é necessário inventar nada.
Os próprios documentos já contêm matéria suficiente.
Um homem entre dois mundos
João de Almeida Barros é particularmente interessante porque resume várias transformações do Portugal oitocentista.
No seu património permanecem vestígios de um mundo antigo: terras, foros, enfiteuse, propriedades agrícolas, casas e heranças.
Na atividade económica encontramos a modernidade: comércio matriculado, sociedades, investimentos, máquinas, seguros e indústria.
Na fábrica coexistem água e vapor.
Na vida pública coexistem religião e teatro.
E na vida privada, ao lado do homem moderno, continuam a atuar antigas estruturas de autoridade social:
a honra,
o casamento,
a legitimidade,
a Igreja,
a desigualdade social.
Não há dois João de Almeida Barros.
É a mesma pessoa atravessando mundos que existiam simultaneamente.
A fábrica desapareceu; a história não
Hoje, a fábrica de João de Almeida Barros já não fala por si.
Não ouvimos a água a fazer mover a roda.
Não vemos a caldeira a produzir vapor.
Não escutamos o batano.
Não assistimos aos trabalhadores a entrar de manhã.
O incêndio desapareceu da memória direta.
Mas ficaram os documentos.
E pouco a pouco eles devolveram:
o negociante abastado;
o participante nas lutas religiosas;
o promotor da festa de Nossa Senhora da Saúde;
o proprietário;
o enfiteuta;
o investidor no Theatro Covilhanense;
o fabricante;
as vinte e seis pessoas que trabalhavam na fábrica;
a primeira mulher;
o inventário;
as casas;
as terras;
a fábrica em reconstrução;
o cunhado Dom Prior de Guimarães;
a criada;
as filhas;
a Roda dos Expostos;
o casamento em casa;
e a inesperada proximidade ao universo de Camilo Castelo Branco.
O que começou como uma investigação sobre uma antiga fábrica da Aldeia do Carvalho transformou-se, assim, numa história muito maior.
Uma história sobre industrialização, património, religião, classe social, família e memória.
E é precisamente por isso que o título já não poderia ser apenas «A fábrica de João de Almeida Barros».
O verdadeiro centro da narrativa está no encontro entre dois mundos e duas vidas
Fontes principais
- Arquivo Distrital de Castelo Branco, Tribunal Judicial da Comarca da Covilhã, Inventário n.º 649, 1891 — PT/ADCTB/JUD/TJCCVL/A/002/01003. Inventário por morte de D. Maria da Conceição Albuquerque: propriedades, fábrica, tinturaria, maquinaria, herdeiros e partilhas.
- Inquérito Industrial de 1881 — fábrica de João de Barros na Aldeia do Carvalho, com 26 trabalhadores e operações de cardagem, fiação, apisoamento e acabamento.
- Diário do Governo, 1876 — documentação da Companhia Edificadora do Theatro Covilhanense, entre cujos subscritores/acionistas figura João de Almeida Barros.
- Regulamento oficial do serviço de selagem de tecidos, 1888 — Posto de Selagem n.º 17 da Aldeia do Carvalho; fábrica n.º 70, João de Almeida Barros — lanifícios.
- Os Debates, 1 de julho de 1890 — notícia do incêndio da fábrica, prejuízos estimados em 25 contos de réis e seguro na La Unión y El Fénix Español.
- Registos paroquiais e documentação eclesiástica, 1894 — casamento de João de Almeida Barros e Jerónima das Neves, reconhecimento das filhas e elementos relativos às circunstâncias canónicas da união.
Fontes complementares: documentação da Roda dos Expostos; escrituras e registos patrimoniais relativos à Covilhã, Boidobra e Barreiros; Avelino Gonçalves, A Última Devassa e Outras Estórias; documentação sobre D. Manuel de Albuquerque Júnior e a Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira; Josué Pinharanda Gomes; e D. Fr. Bartholomeu dos Martyres e a usurpação dos Filippes (Braga, 1895), com cartas de Camilo Castelo Branco e prefácio de D. Manuel de Albuquerque.
