Uma “célula comunista” da Covilhã e a dissolução da Junta de Aldeia do Carvalho pelo Estado Novo

Em 1940, o Governo dissolveu a Junta de Freguesia de Aldeia do Carvalho. A documentação guardada na Torre do Tombo revela, porém, que a história começara muitos meses antes: uma Junta fragilizada pela morte do presidente, um conflito com a Casa do Povo, uma primeira tentativa de dissolução recusada pelo Ministério do Interior e, finalmente, a prisão de um jovem operário da Aldeia do Carvalho acusado de desempenhar um papel central numa “célula comunista” da Covilhã.

Em 26 de fevereiro de 1940, o Estado Novo determinou oficialmente a dissolução da Junta de Freguesia de Aldeia do Carvalho, concelho da Covilhã.

“O decreto ocupava apenas algumas linhas.”

Por detrás dele, porém, existia um processo muito mais complexo, que envolveu a Câmara Municipal da Covilhã, o Governo Civil de Castelo Branco, o Ministério do Interior, a Polícia de Segurança Pública e a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado — PVDE.

A documentação conservada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo permite hoje reconstruir grande parte desta história.

E revela um episódio quase esquecido da história política da Aldeia do Carvalho e da Covilhã.


João Henriques de Sousa, natural da Aldeia do Carvalho, fotografado pela polícia política após a sua prisão em 8 de dezembro de 1939.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registo Geral de Presos, n.º 11832.

Um processo do Ministério do Interior

O processo encontra-se nos arquivos do Ministério do Interior — Direção-Geral de Administração Política e Civil.

Na própria capa foi escrito simplesmente:

“Junta de Freguesia de Aldeia de Carvalho”.

A documentação que o compõe permite acompanhar os acontecimentos desde junho de 1939 até à decisão governamental de fevereiro de 1940.

Capa do processo do Ministério do Interior relativo à Junta de Freguesia de Aldeia do Carvalho. Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Março de 1939: morre o presidente da Junta

A primeira situação de rutura identificada no inquérito surge após a morte do presidente da Junta.

O inquérito realizado posteriormente pela Câmara Municipal da Covilhã informa que José Rodrigues Mousaco — assim aparece grafado no documento — faleceu em:

30 de março de 1939.

A Junta ficou então reduzida e entrou numa fase de crescente instabilidade.

Um dos vogais efetivos, Jerónimo Vicente Salcedas, que tinha sido eleito secretário, incompatibilizou-se com os restantes membros e acabou por pedir a demissão.

Foi então chamado à efetividade um suplente:

Manuel Antunes Carrilho.

O relatório descrevia-o como:

«homem honesto mas inculto»

e entendia que não possuía capacidade para exercer adequadamente as funções.

Outro dos membros era Teodoro Rodrigues da Silva, inicialmente eleito tesoureiro, que passou na prática a dirigir a Junta.

Também ele seria objeto de uma apreciação severa por parte dos inquiridores:

«É um homem sério, mas incapaz.»

Importa sublinhar que estas expressões não constituem uma avaliação histórica objetiva destas pessoas. São apreciações produzidas pelas próprias autoridades administrativas do Estado Novo e devem ser lidas enquanto tal.

Início do inquérito realizado em 8 de junho de 1939 ao funcionamento da Junta de Freguesia de Aldeia do Carvalho. O documento regista a morte do presidente e identifica os membros que permaneceram no executivo.

O conflito entre a Junta e a Casa do Povo

O problema, porém, não era apenas administrativo.

Existia na freguesia uma profunda rivalidade entre a Junta de Freguesia e a Casa do Povo de Aldeia do Carvalho.

As Casas do Povo faziam parte da estrutura corporativa construída pelo Estado Novo e desempenhavam funções sociais, económicas e de enquadramento das populações rurais.

O relatório da Câmara fazia um elogio muito evidente à direção da Casa do Povo.

Atribuía-lhe diversos melhoramentos na freguesia, entre os quais:

águas, caminhos e o alargamento do cemitério.

Ao mesmo tempo, acusava a Junta de prejudicar a atuação daquele organismo devido à rivalidade existente entre ambas as instituições.

É neste ponto que aparece uma das frases mais reveladoras de todo o processo:

«o Estado Novo não pode haver um organismo que, não digo já contrário à organização corporativa, mas que seja até apenas indiferente.»

A linguagem deixa perceber que, para as autoridades, não estava em causa apenas a qualidade da administração local.

Estava também em causa a relação da Junta com a própria estrutura corporativa do regime.

Página do inquérito em que é descrito o conflito entre a Junta e a Casa do Povo. O documento afirma que o Estado Novo não poderia tolerar um organismo sequer “indiferente” à organização corporativa.

A Câmara queria substituir a Junta

Perante o conflito, a Câmara Municipal da Covilhã propôs uma solução radical.

Pretendia que a Junta passasse para regime de tutela e que a administração fosse entregue a uma comissão formada por homens ligados à Casa do Povo.

Foram indicados:

José Menino Salcedas — Presidente
Jerónimo Vicente Salcedas — Tesoureiro
José Ferrão Lages — Secretário

O documento é particularmente interessante porque mostra com clareza quem a Câmara considerava os “Homens Bons” capazes de assumir a administração da freguesia.

Proposta da Câmara Municipal da Covilhã para colocar a Junta em regime de tutela e entregar a administração a dirigentes da Casa do Povo.

Junho de 1939: primeira tentativa de dissolver a Junta

O processo seguiu então para o Governador Civil de Castelo Branco.

Em 21 de junho de 1939, o Governador Civil, António Maria Pinto, escreveu ao Ministro do Interior defendendo a dissolução.

Afirmava que tinham sido esgotados os esforços para evitar aquela solução e descrevia a situação como prejudicial aos interesses da freguesia e desprestigiante para o Estado Novo corporativo.

Ofício do Governador Civil de Castelo Branco ao Ministro do Interior, de 21 de junho de 1939, propondo a dissolução da Junta.

Lisboa diz não

Mas há um pormenor fundamental nesta história.

O Governo recusou inicialmente dissolver a Junta.

Em 27 de junho de 1939, a Direção-Geral de Administração Política e Civil respondeu ao Governador Civil.

A mensagem não deixa margem para grandes dúvidas:

«Sua Ex.ª o Ministro do Interior não encontra no processo de inquérito […] fundamento legal para decretar a dissolução […] da Junta de Freguesia de Aldeia do Carvalho.»

Este documento é decisivo.

Significa que, apesar das acusações de incompetência e do conflito com a Casa do Povo, o Ministério do Interior considerou que ainda não existiam fundamentos suficientes para dissolver legalmente a Junta.

A primeira tentativa falhara.

27 de junho de 1939: o Ministério do Interior informa que não encontra fundamento legal suficiente para dissolver a Junta de Freguesia de Aldeia do Carvalho.

Dezembro de 1939: tudo muda

Cerca de seis meses depois ocorre o acontecimento que viria alterar completamente o processo.

Surge então o nome de um jovem operário da Aldeia do Carvalho:

João Henriques de Sousa

A sua ficha prisional original sobreviveu nos arquivos da polícia política.

“João Henriques de Sousa”
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, fundo PIDE/DGS — Registo Geral de Presos, registo n.º 11832;
ficha produzida pela PVDE em 1939.

João nasceu na Aldeia do Carvalho em 8 de junho de 1915.

Era filho de:

Manuel Henriques de Sousa
e
Maria Luísa Cunha.

Era solteiro e residia na:

Rua Direita — Aldeia do Carvalho — Covilhã.

Tinha apenas 24 anos.

Trabalhava como acabador, na importante indústria de lanifícios da Covilhã.


8 de dezembro de 1939: preso na Covilhã

A sua ficha prisional regista:

«Entregue nesta Directoria, em 8-XII-39, pela P.S.P. da Covilhã, por fazer parte de uma célula comunista.»

Esta passagem confirma que João Henriques de Sousa foi entregue, sob prisão, pela PSP da Covilhã à polícia política.

Importa, contudo, manter uma cautela histórica.

A expressão “célula comunista” é a classificação utilizada pelas próprias autoridades policiais. Ainda falta localizar o processo judicial completo para perceber exatamente como estava organizado esse grupo e qual era a sua relação formal com o Partido Comunista Português.


O estranho atestado da Junta

E é então que acontece o episódio que acabará por colocar a Junta definitivamente sob suspeita.

Apesar de João Henriques de Sousa estar preso, a Junta de Freguesia passou-lhe um documento atestando que, até 17 de dezembro de 1939, tinha tido:

«bom comportamento moral e civil e boa conduta de cidadão».

A reação policial foi imediata.

Num documento datado de 29 de dezembro de 1939, os Serviços de Informação e Ligação informavam que João tinha entrado preso juntamente com outros indivíduos, no âmbito de um processo organizado pela PSP da Covilhã.

Segundo as autoridades, fazia parte:

«de uma célula comunista naquela cidade»

e teria desempenhado:

«o principal papel na actividade comunista desenvolvida pela respectiva célula».

João tinha sido posto à disposição do Tribunal Militar Especial; a sua ficha prisional regista que o processo foi remetido ao TME em 28 de dezembro de 1939.

Perante o atestado passado pela Junta, a polícia chegava a uma conclusão extremamente grave:

«aquela Junta também é comunista ou que está atestando levianamente».

É provavelmente este o momento decisivo de todo o processo.

Documento de dezembro de 1939 relativo a João Henriques de Sousa, identificado como operário têxtil e acusado pelas autoridades de integrar uma “célula comunista” da Covilhã.
Continuação do documento dos Serviços de Informação e Ligação, datado de 29 de dezembro de 1939.

A Junta pede a demissão

No dia seguinte, 30 de dezembro de 1939, os dois homens que restavam em exercício na Junta escreveram ao presidente da Câmara Municipal da Covilhã.

Eram:

Teodoro Rodrigues da Silva, empregado de lanifícios, 49 anos;

e

Manuel Antunes Carrilho, igualmente empregado de lanifícios, 60 anos.

No documento declaravam que o estado de saúde, os seus afazeres particulares e, «muito especialmente»:

«a sua falta de competência»

não lhes permitiam desempenhar devidamente as funções.

Pediam, portanto, a demissão.

A frase é particularmente significativa porque a alegada “incompetência”, já anteriormente apontada pelas autoridades, passava agora a constar de um documento assinado pelos próprios membros da Junta.

30 de dezembro de 1939: Teodoro Rodrigues da Silva e Manuel Antunes Carrilho, únicos membros da Junta em exercício, pedem a demissão invocando, entre outros motivos, a sua “falta de competência”.

O comandante da Polícia da Covilhã intervém

Em 2 de janeiro de 1940, o comandante da PSP da Covilhã dirigiu-se ao presidente da Câmara.

Tratava-se do:

Tenente João José Amaro.

O seu documento é especialmente importante porque menciona diretamente a informação recebida da:

Polícia de Vigilância e Defesa do Estado — PVDE.

Esta precisão é importante: em 1939-1940, a polícia política portuguesa denominava-se PVDE. A designação PIDE só surgiria em 1945.

O comandante não afirmava simplesmente que os elementos da Junta eram comunistas.

Pelo contrário, descrevia-os como:

«homens honestos, conservadores»

mas considerava-os incapazes de exercer o cargo, afirmando que:

«enchem-se de medo, quando se trata de comunistas»

e que se prontificavam a assinar aquilo que lhes fosse apresentado.

Esta passagem obriga-nos a fazer uma distinção importante.

Não existem nestes documentos elementos suficientes para classificar historicamente a Junta como comunista.

A suspeita existiu e foi usada pelas autoridades, mas o próprio comandante da polícia classificava os seus membros como conservadores.

Ofício do comandante da PSP da Covilhã, tenente João José Amaro, de 2 de janeiro de 1940. O documento refere expressamente informação da PVDE.

O facto novo que permitiu voltar a pedir a dissolução

Em 30 de janeiro de 1940, o Governador Civil de Castelo Branco voltou a escrever à Direção-Geral de Administração Política e Civil.

Começa por recordar precisamente aquilo que acontecera em junho.

Tinha sido enviado um inquérito demonstrando a alegada incompetência da Junta e a luta existente com a Casa do Povo.

Mas:

«Não encontrou então Sua Ex.ª o Ministro fundamento legal para decretar a dissolução daquele corpo administrativo.»

E imediatamente depois surge a frase essencial:

«Acontecimentos estranhos vieram […] fornecer os fundamentos necessários.»

Segundo o Governador Civil, tinha ocorrido na Covilhã uma:

«manifestação caracterizadamente subversiva»

por ocasião da qual, segundo o Governador Civil, foi presa uma ‘célula de comunistas’

A PVDE teria apurado que:

«o seu chefe era de Aldeia do Carvalho»

e que precisamente a Junta daquela freguesia lhe tinha passado um atestado de bom comportamento.

O Governador Civil recordava novamente a conclusão policial:

«ou aquela Junta também é comunista ou atesta levianamente».

É também aqui que o comandante da Polícia da Covilhã surge descrito como:

«principal descobridor da trama comunista».

A sequência é agora muito clara:

em junho faltava fundamento para dissolver a Junta; em dezembro surge o caso da alegada célula comunista; em janeiro o Governo Civil considera que apareceram finalmente os “fundamentos necessários”.

30 de janeiro de 1940. O Governador Civil de Castelo Branco explica ao Ministério do Interior que os acontecimentos relacionados com a alegada “célula comunista” forneceram os fundamentos que anteriormente tinham faltado para dissolver a Junta.

26 de fevereiro de 1940: a Junta é dissolvida

Poucas semanas depois, a decisão estava tomada.

O Governo decretou a dissolução através do Decreto n.º 30 299.

O texto justificava a medida afirmando que se verificara por meio de inquérito:

«que a gerência da referida Junta é nociva aos interesses da respectiva autarquia».

E estabelecia no seu artigo único:

«É dissolvida a Junta de Freguesia de Aldeia de Carvalho, concelho da Covilhã, distrito de Castelo Branco.»

O decreto foi publicado no Diário do Govêrno, n.º 46, I Série, de 26 de fevereiro de 1940.

Projeto do Decreto n.º 30 299 que determinou a dissolução da Junta de Freguesia de Aldeia do Carvalho. Publicado no Diário do Govêrno de 26 de fevereiro de 1940.
26 Fevereiro de 1940 – Decreto n.º 30:299
Diário da República

E o que aconteceu a João Henriques de Sousa?

A dissolução da Junta não terminou a história.

A ficha prisional de João permite acompanhar o seu percurso pelas cadeias políticas do Estado Novo.

Entregue à polícia política em 8 de dezembro de 1939, João recolheu à Cadeia do Aljube. Em 27 de dezembro foi transferido para o Depósito de Presos de Caxias, regressando ao Aljube em 1 de março de 1940. No dia seguinte, 2 de março, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial.

O processo foi entregue ao Tribunal Militar Especial.

A ficha regista a condenação a:

12 meses de prisão correcional, com desconto da prisão já sofrida,

e à:

perda dos direitos políticos durante cinco anos.

Em 3 de abril de 1940, foi transferido para a Fortaleza de Peniche.

A URAP confirma independentemente: acabador; entrada em Peniche em 3/4/1940; motivo “Comunista”; libertação em 8/12/1940.

O Museu Nacional Resistência e Liberdade também inclui João Henriques Sousa no memorial dos antigos presos políticos de Peniche e remete para o Registo Geral de Presos da Torre do Tombo.

URAP — União de Resistentes Antifascistas Portugueses
Registo Geral de Presos — Fortaleza de Peniche.

Só recuperaria a liberdade em:

8 de dezembro de 1940

Exatamente um ano depois da sua prisão.


Uma Junta ‘comunista’?

A documentação exige alguma prudência na resposta.

A polícia chegou efetivamente a escrever:

«aquela Junta também é comunista»

mas apresentou imediatamente uma segunda possibilidade:

«ou […] está atestando levianamente».

Mais significativo ainda é o facto de o próprio comandante da PSP da Covilhã classificar os seus membros como:

«homens honestos, conservadores».

Portanto, os documentos atualmente conhecidos não demonstram que a Junta de Freguesia fosse uma organização comunista ou sequer controlada por comunistas.

Demonstram outra coisa.

Uma Junta fragilizada, em conflito com uma instituição corporativa do regime, passou um atestado favorável a um homem que estava preso e era acusado pelas autoridades de pertencer a uma organização comunista clandestina.

Esse episódio transformou um conflito administrativo local numa questão política.

E forneceu ao Governo Civil precisamente aquilo que dizia não possuir alguns meses antes:

novos fundamentos para pedir a dissolução.


Fontes

Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Ministério do Interior — Direção-Geral de Administração Política e Civil.
Processo relativo à Junta de Freguesia de Aldeia de Carvalho.
Cota documental das imagens: PT-TT-MI-DGAPC-E-3-154-7.

PIDE/DGS — Registo Geral de Presos.
João Henriques de Sousa, n.º 11832.
Cota: PT-TT-PIDE-E-010-60-11832.

Diário do Govêrno, I Série, n.º 46, 26 de fevereiro de 1940.
Decreto n.º 30 299 — Dissolve a Junta de Freguesia de Aldeia de Carvalho, concelho da Covilhã.

Memória Comum — Presos Políticos da Ditadura
Ficha de João Henriques de Sousa, registo n.º 11832. A base regista como data da primeira prisão 8 de dezembro de 1939.
Consultar ficha de João Henriques de Sousa

URAP — União de Resistentes Antifascistas Portugueses
Registo Geral de Presos — Fortaleza de Peniche. O registo de João Henriques de Sousa confirma a profissão de acabador, entrada na Fortaleza de Peniche em 3 de abril de 1940, motivo “Comunista”, saída em 8 de dezembro de 1940 e situação final “Restituído à liberdade”.
Consultar lista dos presos políticos da Fortaleza de Peniche

Museu Nacional Resistência e Liberdade — Peniche
Memorial dos antigos presos políticos da Fortaleza de Peniche, baseado no Registo Geral de Presos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Consultar o Memorial dos Presos Políticos


Outros documentos do processo