1908 — A Festa de São Domingos na Aldeia do Carvalho – Corrida dos Púcaros


Uma das primeiras atuações documentadas da Filarmónica Carvalhense, a Corrida dos Púcaros, uma prova pedestre e transportes especiais desde a Covilhã

Portugal, 29 jul 1908
Informação bibliográfica
Portugal : diario catholico / dir. J. Fernando de Sousa. – Lisboa : Thomaz Pereira, 1907-1910. – 60 cm

No verão de 1908, a Aldeia do Carvalho preparava-se para celebrar uma das suas mais antigas festividades religiosas e populares. No dia 29 de julho, o jornal lisboeta Portugal: diário catholico anunciava para o domingo seguinte, 2 de agosto, a tradicional Festa de São Domingos, que nesse ano prometia «exceder em brilho as antecedentes».

A pequena notícia, assinada apenas pela inicial “C.”, é muito mais do que um simples anúncio. O seu conteúdo permite reconstruir um dia inteiro de celebrações, identificar pessoas ligadas à vida religiosa, musical e escolar da freguesia e comprovar que a atual Festa dos Púcaros preserva uma tradição documentada há mais de um século.

O próprio jornal em que a notícia foi publicada circulou entre 1907 e 1910, tendo sede em Lisboa e assumindo-se expressamente como um diário católico. Em julho de 1908 era dirigido pelo padre José Lourenço de Matos.


Da Capela de São Domingos à igreja matriz

O programa começaria pelas 9 horas da manhã, com a condução processional da imagem de São Domingos desde a sua capela até à igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição.

O correspondente escrevia que o santo seria levado:

«da sua capella para a egreja matriz»

e acrescentava que a capela se encontraria cuidadosamente ornamentada, graças ao zelo do seu tesoureiro, identificado apenas como senhor Lopes.

Este pormenor revela a existência de uma organização local responsável pela preparação do templo e das celebrações. A ornamentação da capela, a deslocação da imagem e o regresso posterior através da procissão mostram que a festa articulava dois espaços religiosos fundamentais:

  • a Capela de São Domingos, associada ao santo e ao lugar do mesmo nome;
  • a igreja matriz, centro da vida paroquial da Aldeia do Carvalho.

A atual paróquia continua a reconhecer a Capela de São Domingos como o seu segundo lugar de culto.

Uma devoção com raízes medievais

A presença religiosa de São Domingos neste território é muito anterior a 1908. No catálogo das igrejas portuguesas taxadas em 1320–1321, a igreja de São Domingos da Aldeia do Carvalho aparece avaliada em 50 libras. A referência comprova que o culto e a instituição religiosa já existiam no início do século XIV.

Não é possível afirmar, sem investigação arqueológica e arquitetónica, que o edifício medieval corresponda integralmente à capela atual. É, contudo, legítimo reconhecer uma longa continuidade da devoção a São Domingos no território da antiga freguesia.


Escultura de São Domingos (festa litúrgica: 8 de agosto), proveniente da capela com a mesma invocação em São Domingos – Vila do Carvalho.
Trata-se de uma escultura setecentista, restaurada recentemente, que mantém algumas das caraterísticas barrocas originais.

SÃO DOMINGOS: O Santo que tem olhos de vidro, apresenta-se de frente, envergando o hábito da Ordem Dominicana por ele fundada. O hábito é composto por túnica talar branca e escapulário da mesma cor. Manto negro com motivos fitomórficos dourados, capa e capuz de cor negra. Na mão direita segura uma cruz e na esquerda um livro alusivo à criação da Ordem (Regra), mas que no caso concreto surge com a inscrição “observa a lei do Senhor e serás feliz eternamente”. Aos pés surge o principal atributo, um cão, animal que normalmente tem uma tocha ardente na boca, reporta-se ao sonho que a mãe de São Domingos teve quando se encontrava grávida. Sonhou que um cão incendiava o mundo. Este aspeto foi associado aos frades da ordem que espalharam ardentemente pelos quatro cantos do globo a pregação de Cristo.


A missa solene e a Filarmónica Carvalhense

Pelas 11 horas começaria a missa solene, abrilhantada pela:

«philarmonica Carvalhense»

O jornal esclarecia que a banda havia sido devidamente ensaiada pelo seu «incansável mestre e director», o reverendo Hipólito Parente.

Esta passagem tem um valor histórico excecional. A Filarmónica Recreativa Carvalhense foi fundada em 1 de janeiro de 1908, encabeçada pelo padre Parente, que foi também o seu primeiro maestro. A notícia de julho pertence, portanto, ao próprio ano da fundação e constitui uma das primeiras provas documentais conhecidas da atuação pública da banda.

Apenas cerca de sete meses depois da fundação, a Filarmónica já:

  • acompanhava uma das principais solenidades da freguesia;
  • assegurava musicalmente a missa;
  • era reconhecida publicamente como «Carvalhense»;
  • dispunha de direção e ensaios organizados.

O padre mencionado pelo jornal deverá ser António de Jesus Hipólito Parente, sacerdote cuja nomeação como pároco colado da Aldeia do Carvalho está registada em 13 de junho de 1901. A investigação histórica sobre a banda também o identifica como fundador e primeiro maestro da Filarmónica.

A memória do sacerdote permanece na toponímia local. A sede da Filarmónica situa-se atualmente na Rua Padre Parente, n.º 1.

A notícia de 1908 mostra, assim, como o movimento filarmónico nasceu ligado simultaneamente:

  • à igreja;
  • à formação musical;
  • à festa popular;
  • e à organização comunitária.

Mais de um século depois, a Filarmónica Recreativa Carvalhense continua em atividade, mantendo uma banda e uma escola de música e sendo reconhecida pelo Município da Covilhã como uma instituição cultural centenária.


A procissão solene da tarde

Durante a tarde realizava-se uma nova procissão solene. O texto não descreve detalhadamente o itinerário, mas a sequência do programa permite admitir que a imagem, levada de manhã para a igreja matriz, participaria na procissão e regressaria posteriormente à capela.

Esta circulação ritual entre a capela, a povoação e a matriz transformava o espaço público num prolongamento da celebração religiosa. Ruas, largos e caminhos deixavam temporariamente de ser apenas lugares de passagem para se tornarem espaços de culto, encontro e representação coletiva.

Só depois de concluída a procissão começava a parte mais recreativa do programa.


A Corrida dos Púcaros

O jornal anunciava duas «entusiásticas corridas». A primeira era a:

«corrida de pucaros»

O local escolhido era o largo da igreja matriz.

A notícia de 1908 é especialmente importante porque permite recuar a existência documentada desta tradição a, pelo menos, 2 de agosto de 1908. Não se trata, portanto, de uma criação recente nem de uma tradição cuja antiguidade dependa apenas da memória oral.

Púcaros, burros e destreza popular

A forma atual da corrida encontra-se ligada aos púcaros de barro e à participação de burros. Uma reportagem de 2016 descrevia a festa através de uma imagem muito concreta: cerca de cinquenta púcaros de barro e três burros. A própria linguagem local conserva a expressão «picar os púcaros».

Os anúncios contemporâneos continuam a apresentar a prova como:

«Corrida dos Púcaros — com burro»

confirmando a permanência desta componente tradicional.

O púcaro é um pequeno recipiente com asa, geralmente de barro não vidrado, utilizado tradicionalmente para beber ou retirar água de recipientes maiores.

Na festa, porém, deixava a sua função quotidiana e transformava-se num elemento de competição, destreza, humor e espetáculo popular.


A continuidade pelos Amigos Vila de Mouros

Nas últimas décadas, a preservação da Festa e da Corrida dos Púcaros tem estado fortemente associada ao CCD — Amigos Vila de Mouros.

Em 2014, o programa organizado pela associação incluía:

  • abertura da quermesse e do bar;
  • tradicional Corrida dos Púcaros;
  • animação durante a tarde;
  • e o chamado Baile dos Púcaros.

A organização contava então com o apoio da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, da Filarmónica Recreativa Carvalhense e de outras instituições locais.

A tradição mantém-se atualmente através da Associação Amigos Vila de Mouros, continuando a integrar burros, púcaros, música, baile e convívio popular.


Corrida dos Púcaros — Vila do Carvalho, 3 de agosto de 2014
Vídeo de Carina Esteves — Nina.

O registo de 2014 preserva em imagem uma tradição que o jornal já documentava 106 anos antes.


A corrida pedestre entre a povoação e São Domingos

A segunda prova era uma corrida pedestre. O percurso foi descrito com invulgar precisão:

«desde a povoação a S. Domingos e vice-versa»

Os participantes partiriam, portanto, do núcleo da Aldeia do Carvalho, seguiriam até ao lugar ou à capela de São Domingos e regressariam ao ponto de partida.

A prova ligava fisicamente os dois principais espaços da festa:

  • a povoação e a igreja matriz;
  • o lugar e a Capela de São Domingos.

Não conhecemos ainda:

  • a distância exata;
  • a rua utilizada na partida;
  • o número de participantes;
  • as regras;
  • os prémios;
  • ou se a prova era aberta apenas aos homens.

Não deve também afirmar-se que o percurso incluía obrigatoriamente trilhos serranos. A antiga via entre a povoação e São Domingos poderia já acompanhar, pelo menos parcialmente, o eixo que mais tarde integrou a Estrada Municipal 504.

Ainda assim, o anúncio comprova que em 1908 se realizavam na Aldeia do Carvalho competições pedestres formalmente organizadas, com percurso de ida e volta e assistência popular.

A corrida pode ser entendida como uma antecessora local das atuais provas populares de estrada e montanha.


“Carreiras de carro” desde a Covilhã

Um dos trechos mais reveladores da notícia dizia respeito ao transporte dos visitantes:

«haverá carreiras de carro a preços resumidos»

A expressão impressa é mesmo “preços resumidos”, embora o sentido contextual corresponda claramente a preços reduzidos ou mais acessíveis.

O objetivo era permitir que os «ilustres Covilhanenses» visitassem novamente a Aldeia do Carvalho sem grande incómodo.

Este anúncio prova que a festa ultrapassava a dimensão estritamente local. Havia:

  • procura por parte dos habitantes da Covilhã;
  • transporte organizado;
  • preços especiais;
  • intenção expressa de atrair visitantes;
  • e uma relação festiva regular entre a cidade e a aldeia.

O jornal não identifica o tipo de veículos utilizados. Por isso, não é possível concluir se se tratava exclusivamente de carros de tração animal, diligências, veículos coletivos motorizados ou uma combinação destes meios.

A palavra “carreiras” indica, contudo, um serviço de transporte organizado em horários ou viagens destinadas à festa, e não apenas a deslocação espontânea em veículos particulares.

A celebração produzia também efeitos económicos: os visitantes consumiam nas casas comerciais e tabernas, participavam nas diversões e contribuíam para a projeção regional da freguesia.


Os exames das crianças da freguesia

A notícia termina com um apontamento sobre o ensino local.

Tinham sido realizados os exames de 1.º grau das crianças da freguesia, com classificações consideradas muito satisfatórias. O correspondente destacava particularmente os resultados das alunas do sexo feminino.

O texto não fornece os nomes das crianças nem identifica a escola ou os professores responsáveis. Ainda assim, revela:

  • a importância social atribuída à instrução primária;
  • o orgulho comunitário nos resultados escolares;
  • a existência de exames públicos ou oficialmente reconhecidos;
  • e uma atenção especial ao sucesso escolar das meninas.

No mesmo pequeno espaço jornalístico surgem, assim, lado a lado:

  • a festa religiosa;
  • a Filarmónica;
  • um sacerdote músico;
  • um novo professor;
  • e o aproveitamento escolar das crianças.

É um retrato muito expressivo de uma comunidade em que religião, música, ensino e sociabilidade se cruzavam continuamente.


Um dia na Aldeia do Carvalho de 1908

A notícia publicada há mais de um século permite acompanhar quase todo o programa daquele domingo:

Pelas 9 horas, São Domingos seria levado da capela para a igreja matriz.

Pelas 11 horas, teria início a missa solene, acompanhada pela recém-fundada Filarmónica Carvalhense e dirigida musicalmente pelo padre Hipólito Parente.

Durante a tarde, realizava-se a procissão.

Seguiam-se a Corrida dos Púcaros, no largo da igreja matriz, e a corrida pedestre entre a povoação e São Domingos.

Da Covilhã chegariam visitantes através de carreiras de transporte com preços especiais.

Ao mesmo tempo, o correspondente celebrava a formação de um novo professor e o bom aproveitamento escolar das crianças da freguesia.

Não estamos apenas perante o anúncio de uma festa. Estamos perante um documento sobre:

  • património religioso;
  • história da música;
  • jogos tradicionais;
  • práticas desportivas;
  • mobilidade;
  • educação;
  • relações entre a Covilhã e a Aldeia do Carvalho;
  • e organização comunitária.

A Festa de São Domingos de 1908 mostra-nos uma Aldeia do Carvalho dinâmica, capaz de mobilizar instituições, músicos, crianças, famílias e visitantes em torno de um património que, embora transformado, permanece vivo.


Nota sobre a transcrição

Nas citações foram conservadas algumas formas da ortografia original, nomeadamente:

  • capella;
  • egreja;
  • philarmonica;
  • pucaros;
  • logares;
  • Covilhanenses.

Foram introduzidos acentos e pontuação apenas no texto explicativo moderno, sem alterar o sentido do documento.