“‘No entanto, mora lá gente…’ — a habitação operária da Aldeia do Carvalho nas páginas do Diário de Lisboa (1945)”

Foto de habitação em Aldeia do Carvalho,
Diário de Lisboa 12 Dezembro de 1945

Série “Vida e Morte do Trabalhador Nacional”

“A produção nacional de lã daria a cada português meio metro por ano”

Em dezembro de 1945, o Diário de Lisboa publicou uma série de reportagens sobre a realidade social e industrial da Covilhã. Entre fábricas, bairros operários e caminhos serranos, a Aldeia do Carvalho surge várias vezes retratada como uma povoação profundamente ligada ao trabalho nos lanifícios. As páginas do jornal revelam as longas deslocações dos operários, a dureza das condições de vida e o grave problema da habitação, deixando um raro e valioso testemunho da memória social da aldeia no pós-guerra.

Aldeia do Carvalho, anos 40 Séc.XX

(…)Com o Inverno, a aldeia tomava outra fisionomia. Até aí, fosse na Primavera, fosse no Verão ou no Outono, os homens mal paravam em casa. Quando volviam das fábricas, punham-se a falaciar com os vizinhos ou a cavar algum palmo de chão, ate a hora do lusco-fusco. Os que laboravam no turno da noite e possuíam um quinchoso ou leiras nas declividades da serra, empregavam o dia a amanhar essas territas. Muitos deles, ao entrar nas fábricas, às cinco da tarde, já haviam trabucado seis e oito horas, mas tinham por boa sorte consumar, num mesmo dia, esse duplo ‘trabalho, pois sem o acrescento das couves, das batatas e, às vezes, do centeio que as courelas davam, o salário não lhes bastaria para sustentar a família. No Inverno, porém, belgas e quintais magra assistência exigiam. Sob o céu pardo, nas ruelas cobertas de lama ou de neve, os casebres tornavam-se lúgubres e, mesmo nas horas diurnas, adquiriam feições de cavernas, com um lume a arder lá dentro. Antigamente, os homens metiam-se nas vendas e emborrachavam-se nesses dias pluviosos. Mas, com o decorrer dos anos, a propaganda contra o álcool, feita pelos próprios operários mais conscientes, fora afastando das tabernas a maioria deles. Como Ricardo, quase todos os outros, ao volver das fábricas ficavam em casa ou se juntavam, em paleio, no casebre do Marreta. As casas eram, porém, de uma tristeza infinita, mais negras e enervantes do que o próprio Inverno. Nelas, as mães increpavam os filhos, que saiam a patinar nos lodaçais, a correr. muito contentes, sob chuva ou a brincar na neve, se esta já caira(…)

A Lã e a Neve, Ferreira de Castro
Diário de Lisboa,
10 de Dezmebro de 1945
Diário de Lisboa,
10 de Dezembro 1945 (pág.2)
Diário de Lisboa.
11 de dezembro 1945
Diário de Lisboa,
11 de Dezembro 1945 (pág.7)
Diário de Lisboa,
12 de Dezembro de 1945
Diário de Lisboa, 12 Dezembro de 1945 (pág.5)

(…)Pouco depois, Horácio entrava na Aldeia do Carvalho. O lugar, de ruelas sinuosas, becos soturnos, casas a derruírem de velhice e de pobreza, assemelhava-se, no seu aspecto físico, carregado de negrume, a quase todos os povoados beirões. A Aldeia do Carvalho distinguia-se de muitas outras apenas porque, em vez de se entregar somente a vida pastoril e agrícola, a maioria dos seus habitantes trabalhava nas fábricas da Covilhã. Horácio viera ali só uma vez; apesar disso, lembrava-se bem da casa de Manuel Peixoto, companheiro de pastoreio nos altos da serra. Justamente porque Maio ia no fim, ele temia que o amigo houvesse já abalado para as pastagens dos cimos.(…)

A Lã e a Neve, Ferreira de Castro