“Mordido por uma víbora” — Serra da Estrela, 1953

No dia 7 de junho de 1953, o Diário de Lisboa noticiava a entrada no Hospital da Covilhã de João Correia, forneiro de 33 anos, natural da Aldeia do Carvalho, após ter sido mordido por uma víbora enquanto apanhava lenha em Unhais da Serra.

Diário de Lisboa,
7 Junho 1953

A breve notícia, hoje quase esquecida, transporta-nos para um quotidiano serrano duro e perigoso, marcado pelo trabalho da lenha, do carvão vegetal e dos fornos tradicionais da montanha.

Segundo o jornal:

“Deu entrada no Hospital da Covilhã o forneiro João Correia, de 33 anos, casado, natural da Aldeia do Carvalho, que foi mordido por uma víbora no dedo indicador da mão esquerda quando apanhava lenha em Unhais da Serra. Um primo da vítima conseguiu matar a víbora e trazê-la para a Covilhã, onde tem estado em exposição.”

O episódio recorda a importância dos chamados chamiceiros e forneiros serranos, homens habituados aos matos, fragas e encostas da Serra da Estrela, que trabalhavam frequentemente em locais isolados e agrestes, recolhendo lenha e alimentando os fornos tradicionais ligados às economias locais.

A vida destes trabalhadores implicava um profundo conhecimento da montanha, mas também contacto permanente com os perigos naturais da serra: ravinas, intempéries, acidentes e animais selvagens, entre eles a víbora-cornuda.

Foto CISE – Centro de Interpretação da Serra da Estrela

A víbora-cornuda na Serra da Estrela

A víbora-cornuda (Vipera latastei) é uma serpente de corpo robusto e cabeça triangular, facilmente reconhecível pela pequena protuberância no focinho que lhe deu o nome popular.

De tonalidade acastanhada ou cinzenta, apresenta normalmente ao longo do dorso um desenho escuro em ziguezague. Apesar da reputação temida, trata-se de uma espécie geralmente tímida e pouco agressiva, atacando sobretudo quando molestada ou surpreendida.

Na Serra da Estrela ocorre sobretudo:

  • em zonas pedregosas,
  • locais de matagal aberto,
  • áreas soalheiras,
  • e encostas de média altitude.

Alimenta-se principalmente de pequenos roedores e lagartos, utilizando o veneno para imobilizar as presas e facilitar a digestão.

Embora pouco abundante, continua a ser uma das serpentes mais perseguidas da região devido ao temor que tradicionalmente desperta entre as populações serranas.

Um pequeno episódio do quotidiano serrano

A notícia de 1953 constitui também um testemunho da relação íntima entre as populações da Aldeia do Carvalho e os territórios de montanha da Serra da Estrela.

Durante décadas, muitos homens da freguesia deslocavam-se regularmente para:

  • cortar lenha,
  • trabalhar nos fornos,
  • pastorear,
  • abrir caminhos,
  • transportar madeira,
  • ou procurar sustento nas encostas serranas.

A montanha era simultaneamente espaço de trabalho, sobrevivência e perigo.

Hoje, este pequeno recorte de jornal permite recordar não apenas um acidente invulgar, mas igualmente um modo de vida serrano profundamente ligado à natureza e às atividades tradicionais da Serra da Estrela.