A posição geográfica da atual Aldeia do Carvalho poderá corresponder a um antigo corredor natural de circulação utilizado desde épocas proto-históricas, muito antes da formação das atuais povoações medievais e modernas da Serra da Estrela e da Cova da Beira.

No estudo Génese e Transformação das Estruturas de Povoamento do I milénio a.C. na Beira Interior, o investigador Ricardo Costeira da Silva refere a existência de importantes itinerários naturais que estruturariam os contactos humanos, económicos e culturais da Beira Interior durante o I milénio a.C.
Entre esses percursos, destaca-se uma via que, partindo da região de Manteigas, seguiria através da vertente sul da Serra da Estrela em direção à Cova da Beira e ao vale do Tejo:
“Outra via conhecida seria a que de Manteigas se direccionava por Aldeia do Carvalho, Fundão, Alpedrinha, Alcongosta, Soalheira, Lardosa, Escalos de Baixo, Escalos de Cima, Ponte do Moinheco, Ladoeiro e Rosmaninhal.”
O autor admite ainda uma derivação alternativa deste eixo de circulação:
“Em alternativa ao Fundão poderia derivar por Valhelhas, Belmonte, Capinha, Penamacor, Pedrógão, Proença-a-Velha e Idanha-a-Nova.”
Apesar das reservas relativas à antiguidade exacta destes traçados, o estudo sublinha a sua enorme importância estratégica na ligação entre diferentes regiões da fachada interior peninsular.
Estas vias naturais permitiriam:
- o acesso à Cova da Beira e ao Alto Zêzere, associados à exploração de estanho;
- a ligação à bacia do Tejo e seus afluentes, regiões de riqueza aurífera;
- os contactos entre a Serra da Estrela, o planalto beirão, o vale do Douro e a Meseta ocidental.
A referência ganha particular relevância ao associar estes corredores de circulação à proximidade de antigos povoados da Beira Interior, sugerindo a existência de uma longa continuidade territorial e humana.
Neste contexto, a localização da Aldeia do Carvalho deixa de surgir apenas como um pequeno aglomerado serrano de origem medieval, passando a integrar uma paisagem de circulação muito mais antiga, ligada:
- aos movimentos pastorícios;
- ao comércio de metais;
- às redes de contacto proto-históricas;
- e à própria organização do povoamento da Beira Interior.
A geografia ajuda a compreender esta persistência. Situada numa zona de passagem entre a vertente sul da Serra da Estrela, o vale da Cova da Beira e os acessos ao interior raiano, a Aldeia do Carvalho ocupa uma posição natural de atravessamento entre montanha e planície.
Muitos destes percursos ancestrais acabariam mais tarde por ser reutilizados:
- por caminhos medievais;
- por rotas de transumância;
- por vias comerciais;
- e, posteriormente, por estradas modernas.
A memória destes antigos corredores poderá ainda sobreviver em caminhos rurais, topónimos, passagens serranas e alinhamentos históricos que continuam a marcar a paisagem da região.
Referência bibliográfica
Ricardo Costeira da Silva — Génese e Transformação das Estruturas de Povoamento do I milénio a.C. na Beira Interior.

