Uma relação oficial publicada em 1888 identifica a Aldeia do Carvalho como sede de um posto da rede nacional de fiscalização dos tecidos. Ao posto n.º 17 estavam atribuídas as fábricas de lanifícios de João de Almeida Barros e da firma Custódio & Silva.

Em 19 de novembro de 1888, a Aldeia do Carvalho surgiu formalmente inscrita na organização nacional do serviço de selagem dos tecidos. Na relação anexa ao respetivo regulamento, a povoação aparece como sede do:
Posto de selagem n.º 17 — Aldeia do Carvalho
O documento identifica duas fábricas de lanifícios pertencentes à área do posto: a de João de Almeida Barros e a firma Custódio & Silva.
Mais do que uma simples referência administrativa, esta lista demonstra que, no final do século XIX, a Aldeia do Carvalho era reconhecida pelo Estado como um ponto da rede oficial de fiscalização da indústria têxtil portuguesa.
O que era a selagem dos tecidos?
O serviço encontrava-se regulado pelo diploma intitulado:
Regulamento provisório para o serviço de sellagem de tecidos, télas e objectos de vestuário de fabricação nacional e estrangeira
A grafia original utilizava as formas “sellagem” e “télas”; neste artigo adota-se a ortografia atual, mantendo-se a forma histórica apenas nas transcrições.
O regulamento, aprovado por decreto de 19 de novembro de 1888, organizava o serviço através de inspeções, subinspeções e postos locais. A cada posto eram associadas as fábricas abrangidas pela fiscalização.
A selagem consistia na aplicação de uma marca oficial às peças de tecido antes da sua entrada no circuito comercial. O procedimento permitia controlar a produção e a circulação de tecidos nacionais e estrangeiros e verificar o cumprimento das normas em vigor. Um estudo do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior confirma que as peças eram seladas antes de serem lançadas no mercado.
Em termos simplificados, o processo compreendia:
produção da peça → apresentação ao serviço competente → verificação e selagem → entrada no comércio
O selo não era, portanto, uma simples marca escolhida pelo fabricante. Representava a intervenção da administração pública na fiscalização da produção têxtil.
A organização administrativa do posto n.º 17
Na Colecção Oficial de Legislação Portuguesa — Ano de 1888, a relação encontra-se organizada por distrito, concelho, inspeção, subinspeção, número e localização do posto, designação da fábrica e respetiva localidade.
O posto da Aldeia do Carvalho surge enquadrado da seguinte forma:
Distrito administrativo: Castelo Branco
Concelho: Covilhã
Inspeção: Sul
Subinspeção: Covilhã
Número do posto: 17
Situação: Aldeia do Carvalho
Na coluna das fábricas pertencentes ao posto encontram-se:
70 — João de Almeida Barros, lanifícios — Aldeia do Carvalho
71 — Custódio & Silva, lanifícios — idem
A palavra “idem” confirma que a segunda fábrica também se localizava na Aldeia do Carvalho.
Os números 70 e 71 correspondem à numeração utilizada na relação oficial. Sem outros documentos, não é possível determinar se funcionavam como números permanentes de matrícula industrial ou apenas como números de ordem naquela tabela.

Porque existia um posto na Aldeia do Carvalho?
A documentação conhecida não explica os critérios concretos usados para escolher a localização dos postos. Também não permite ainda saber se o serviço funcionava num edifício próprio, numa dependência pública, numa casa arrendada ou nas instalações de alguma fábrica.
O que pode afirmar-se com segurança é que a Aldeia do Carvalho foi reconhecida como ponto local da rede de fiscalização dos tecidos e que, em 1888, pelo menos duas fábricas de lanifícios lhe estavam administrativamente atribuídas.
Esta decisão deve ser entendida no contexto do desenvolvimento industrial da povoação.
A região da Covilhã possuía uma tradição secular de transformação da lã, apoiada pela disponibilidade de matéria-prima, pela experiência dos trabalhadores e pelo aproveitamento hidráulico das ribeiras. A criação da Real Fábrica de Panos, em 1764, marcou uma nova etapa na organização da indústria laneira, que se expandiu posteriormente para várias povoações do concelho.
Na Aldeia do Carvalho, a atividade de tecelagem era já mencionada em 1864 por Fradesso da Silveira. Contudo, foi sobretudo durante a década de 1870 que começaram a surgir unidades fabris de maior dimensão.
A formação do núcleo industrial
Segundo as páginas 57 e 58 de O Movimento Operário da Covilhã, de António Rodrigues Assunção, em 1873 foi fundado junto à ribeira da Aldeia um estabelecimento de cardagem, fiação e apisoamento pertencente à firma Espiga Barata & C.ª.
Em 1875 surgiu a fábrica de João de Barros, dedicada à cardagem, fiação, apisoamento e acabamento. Os dados utilizados pelo autor, provenientes do Inquérito Industrial de 1881, atribuem-lhe 26 operários, entre os quais mulheres e menores de ambos os sexos.
O João de Barros referido neste estudo corresponde ao industrial que, na relação oficial de 1888, aparece com o nome completo de João de Almeida Barros.
Em 1876 foi fundada a fábrica completa de Custódio & Silva, também junto à ribeira da Aldeia. Segundo o estudo baseado no Inquérito Industrial de 1881, a unidade empregava 101 trabalhadores, dos quais 46 eram mulheres e menores. Era considerada uma das maiores e mais importantes fábricas do concelho e encontrava-se entre as poucas equipadas com teares mecânicos e força motriz a vapor.
Em 1877, foi ainda fundada junto à ribeira de São Domingos a fábrica de João Nunes da Costa, embora estivesse parada no momento do Inquérito Industrial de 1881.
Quando a relação dos postos de selagem foi publicada, em 1888, a Aldeia do Carvalho possuía, portanto, uma experiência industrial com mais de uma década, várias unidades produtivas e uma comunidade de trabalhadores ligada à preparação, fiação, tecelagem, apisoamento, tinturaria e acabamento da lã.
Custódio & Silva: da Aldeia do Carvalho a Filadélfia
A firma Custódio & Silva já possuía projeção internacional doze anos antes de surgir associada ao posto n.º 17.
Em 1876, a fábrica integrou a representação oficial portuguesa na Exposição Internacional de Filadélfia, nos Estados Unidos da América. A sua participação encontra-se registada no Portuguese Special Catalogue, catálogo oficial preparado para a presença portuguesa no certame.
A empresa apresentou:
- panos de lã;
- flanelas;
- tecidos de lã do tipo cheviote.
O catálogo descreve uma unidade mecanizada, dotada de maquinaria para preparação, fiação, tecelagem e tinturaria. Indica ainda um motor hidráulico de 14 cavalos, alimentado pelas águas da ribeira da Lapa, e um total de 89 trabalhadores: 38 homens, 16 mulheres e 35 crianças. A produção anual era avaliada em 22 contos de réis.
Estes números diferem dos 101 trabalhadores e da referência ao motor a vapor apresentados no estudo baseado no Inquérito Industrial de 1881. A diferença poderá resultar das datas, dos critérios de contagem ou de alterações técnicas ocorridas entre os dois levantamentos. Não deve, por isso, ser eliminada ou harmonizada sem consulta direta das fontes originais.
O essencial é claro: Custódio & Silva não era uma pequena oficina artesanal. Era uma unidade industrial mecanizada, com dezenas de trabalhadores e produção considerada suficientemente relevante para representar Portugal numa das principais exposições internacionais do século XIX.
A fábrica mantinha também ligações a redes técnicas europeias. Entre 1885 e 1888, o belga Leonard Joseph Longle, natural de Dison, na região industrial de Verviers, trabalhou na empresa como mestre acabador e ultimador de fazendas de lã. A presença de técnicos belgas e alemães e, posteriormente, de industriais catalães demonstra a circulação internacional de conhecimentos especializados na Aldeia do Carvalho.
A fábrica de João de Almeida Barros
A outra unidade ligada ao posto n.º 17 pertencia a João de Almeida Barros, também referido nos documentos como João d’Almeida Barros ou João de Barros.
A relação de 1888 constitui uma prova oficial de que possuía uma fábrica de lanifícios na Aldeia do Carvalho.
Documentação judicial posterior identifica-o como:
“fabricante e commerciante matriculado”
Num processo decidido pela Relação de Lisboa em 1894, ficou registado que mantinha escrituração comercial e que recebera empréstimos destinados a acudir a:
“despesas e urgencias commerciaes e fabris”
A fábrica teve, porém, um fim dramático. Uma notícia publicada em 1 de julho de 1890 informa que o estabelecimento foi completamente destruído por um incêndio.
A unidade encontrava-se segurada na companhia espanhola:
La Unión y El Fénix Español
Os prejuízos foram avaliados em:
25 contos de réis — 25:000$000 réis
O montante revela a importância económica do estabelecimento, embora a notícia não discrimine o valor do edifício, da maquinaria, das matérias-primas, dos tecidos armazenados ou dos restantes bens destruídos.
Ainda não foi possível determinar o valor da apólice, a indemnização efetivamente paga ou se João de Almeida Barros chegou a reconstruir a fábrica.
O posto e a evolução das fábricas
O Inquérito Industrial de 1890, citado por António Rodrigues Assunção, identificava três fábricas na Aldeia do Carvalho:
- Francisco António Pereira Espiga & C.ª, com 22 operários;
- Custódio José Gonçalves, com 38 operários;
- Manuel Ferreira Bicho & C.ª, com 14 operários.
Os nomes já não coincidem integralmente com os da relação de 1888. Esta diferença poderá refletir alterações de propriedade, dissoluções de sociedades, mudanças de firma ou a substituição de unidades fabris.
Não é possível afirmar, apenas com estas listas, que Custódio José Gonçalves tenha sucedido diretamente à firma Custódio & Silva. Essa relação deverá ser confirmada através de escrituras comerciais, matrículas de firmas, processos industriais ou documentação notarial.
Do mesmo modo, a ausência de João de Almeida Barros na relação de 1890 é compatível com a destruição da sua fábrica pelo incêndio, mas não constitui, por si só, prova da data em que cessou formalmente a atividade.
Uma povoação marcada pela industrialização
O desenvolvimento fabril teve consequências profundas na população e na organização social da Aldeia do Carvalho.
Em 1864, a freguesia possuía 1.059 habitantes. Em 1878, esse número ascendia a 1.366, representando um crescimento aproximado de 27%.
Entre 1878 e 1890, a população aumentou cerca de 45%, enquanto o número de fogos cresceu aproximadamente 31%. O estudo relaciona esta evolução tanto com as fábricas locais como com a proximidade da Covilhã, que atraía trabalhadores em busca do chamado “salário industrial”.
No início do século XX, a Aldeia do Carvalho seria um dos principais centros industriais do concelho, provavelmente o segundo depois da cidade da Covilhã, posição que mais tarde viria a ser ocupada pelo Tortosendo.
Em 1902, o operariado local encontrava-se já ligado às movimentações grevistas que atingiam a região. Na greve geral de 1907 participaram trabalhadores de quatro fábricas da povoação, incluindo a unidade de José Cristóvão Correia, que empregava 120 operários.
A existência do posto de selagem n.º 17 deve, assim, ser lida como parte desta transformação mais ampla: a passagem de uma tradição de tecelagem doméstica para uma sociedade marcada pelas fábricas, pela mecanização, pelo trabalho assalariado e pela formação de uma comunidade operária.
O significado histórico do posto n.º 17
O posto de selagem não era uma fábrica nem uma associação de industriais. Era uma unidade local do serviço administrativo responsável pela fiscalização dos tecidos.
Ainda assim, a sua presença na Aldeia do Carvalho possui um forte significado histórico.
O documento de 1888 permite afirmar:
A Aldeia do Carvalho integrava oficialmente a rede nacional de fiscalização dos tecidos através do posto de selagem n.º 17, dependente da Subinspeção da Covilhã e da Inspeção Sul. Ao posto estavam atribuídas as fábricas de lanifícios de João de Almeida Barros e de Custódio & Silva.
As duas fábricas tinham percursos particularmente relevantes.
Custódio & Silva representara Portugal na Exposição Internacional de Filadélfia e empregava técnicos estrangeiros especializados. João de Almeida Barros era fabricante e comerciante matriculado, proprietário de uma unidade cujo valor económico ficou patente nos prejuízos de 25 contos provocados pelo incêndio de 1890.
O posto n.º 17 constitui, por isso, uma das provas mais claras de que a Aldeia do Carvalho ocupava um lugar próprio na geografia industrial dos lanifícios portugueses.
Fontes
Portugal, Colecção Oficial de Legislação Portuguesa — Ano de 1888, Lisboa, Imprensa Nacional, 1889, pp. 482–489.
Portugal, Regulamento provisório para o serviço de sellagem de tecidos, télas e objectos de vestuário de fabricação nacional e estrangeira, aprovado por decreto de 19 de novembro de 1888.
António Rodrigues Assunção, O Movimento Operário da Covilhã, vol. I, 1890–1907, Torres Novas, Gráfica Almondina, 2006, pp. 57–58. A autoria e a identificação da obra são confirmadas por referências bibliográficas e notícias sobre a sua publicação.
António dos Santos Pereira, «Produzir na Covilhã: da feitoria mercantil do século XVI à industrialização contemporânea», UBImuseum — Revista Online do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior.
«Quando a Aldeia do Carvalho representou Portugal na Exposição Universal de Filadélfia (1876)».

