Em 29 de maio de 1919, o jornal quinzenal Arauto da Beira publicou uma breve, mas rara, descrição do vestuário tradicional usado na Aldeia do Carvalho. A notícia, integrada num artigo intitulado «Costumes da região», constitui-se como mais um testemunho sobre a identidade cultural da povoação no início do século XX.

A fotografia apresentada acima é a correspondência visual mais próxima, sobretudo pela época e pela região. É muito semelhante ao traje descrito para a Aldeia do Carvalho, embora o agasalho da fotografia pareça usado sobre o ombro e não se consiga confirmar a existência de capuz.
O texto começa por apresentar as povoações da região da Covilhã como relativamente semelhantes nos hábitos, costumes e formas de falar. O autor reconhecia pequenas diferenças na pronúncia e no vocabulário, mas considerava que essas particularidades acabavam por se confundir. Quando passa ao vestuário, porém, introduz uma exceção expressa: a Aldeia do Carvalho.
Uma exceção entre as povoações da região

Na grafia original, o jornal escreveu:
«O vestuário também é egual, excepção feita a Aldeia do Carvalho, distante da Covilhan 4 kilometros, que até ha poucos annos, usavam os seus habitantes, especialmente os homens, facto de burel, compostos de calção de alçapão com botões, polainas, jaleca curta, colete aberto, e capote com capuz. Os botões eram todos amarelos.»
A redação apresenta algumas irregularidades gramaticais e tipográficas próprias da imprensa da época. Em grafia atualizada e com a construção regularizada, a passagem poderá ser lida da seguinte forma:
O vestuário era também semelhante, com exceção da Aldeia do Carvalho, situada a quatro quilómetros da Covilhã, onde, até poucos anos antes, os habitantes, especialmente os homens, usavam um fato de burel composto por calção de alçapão com botões, polainas, jaleca curta, colete aberto e capote com capuz. Os botões eram todos amarelos.
O aspeto mais significativo da notícia está precisamente no contraste criado pelo jornalista. Depois de afirmar que os costumes das diferentes povoações eram quase iguais, o autor escolheu o traje da Aldeia do Carvalho como uma das poucas características verdadeiramente distintivas da região.
A proximidade à Covilhã também é salientada: a povoação encontrava-se, segundo o jornal, a apenas quatro quilómetros da cidade. Apesar dessa proximidade e do contacto regular com um importante centro urbano e industrial, o vestuário tradicional teria permanecido reconhecível durante mais tempo.
Como era composto o traje?
A notícia descreve um conjunto masculino formado por várias peças.
O elemento principal era o fato de burel. O burel é um tecido de lã espesso, resistente e geralmente pouco trabalhado, historicamente associado ao vestuário das populações rurais e serranas. A sua utilização seria adequada ao frio, à humidade e às atividades realizadas ao ar livre na proximidade da Serra da Estrela.
O jornal identifica ainda:
- o calção de alçapão, com uma aba frontal presa por botões;
- as polainas, usadas para proteger a parte inferior das pernas;
- a jaleca curta, uma espécie de casaco curto;
- o colete aberto;
- o capote com capuz, utilizado como agasalho exterior.
Esta composição permite imaginar um traje funcional e adaptado à vida rural e serrana, protegendo o corpo sem impedir os movimentos necessários ao trabalho agrícola, à pastorícia e às deslocações a pé.
A notícia não menciona o calçado, o tipo de camisa, o chapéu ou qualquer outro elemento usado na cabeça. Também não indica as cores do burel ou das diferentes peças.
Os botões amarelos
O jornal chama especialmente a atenção para um pormenor:
«Os botões eram todos amarelos.»
A referência sugere que os botões constituíam um elemento visual importante do traje. É possível que fossem metálicos, eventualmente de latão ou de outro material dourado, como acontecia nalguns trajes tradicionais portugueses. Contudo, o texto não identifica o material e, por isso, essa possibilidade deve ser apresentada apenas como hipótese.
A cor amarela dos botões poderia criar um contraste evidente com o burel, habitualmente de tonalidades naturais e escuras. Este detalhe talvez ajudasse a tornar o traje facilmente reconhecível quando os habitantes da Aldeia do Carvalho se deslocavam à Covilhã.
Um «tipo distinto»
O artigo prossegue com uma caracterização do homem da povoação:
«O aldeão era um typo distincto, agarrado ao seu traje antiquado de que lhe custou a despojar-se, havendo ainda, um ou outro velho que aparece na cidade com o seu clássico fato.»
A expressão «tipo distinto» mostra que o habitante da Aldeia do Carvalho era reconhecido pela sua aparência. Não se tratava apenas de um conjunto de peças de roupa: o traje funcionava como sinal de origem e identidade.
Quando um homem da aldeia entrava na Covilhã usando o fato tradicional, o seu vestuário permitiria provavelmente reconhecer de imediato a comunidade a que pertencia.
A frase segundo a qual o aldeão estava «agarrado» ao traje e teria dificuldade em abandoná-lo revela a persistência dessa tradição. Ao mesmo tempo, a escolha das palavras «traje antiquado» mostra a perspetiva urbana e modernizadora do jornalista. O vestuário era observado como uma sobrevivência de costumes antigos, num período em que a roupa confecionada industrialmente e os modelos urbanos se difundiam progressivamente pelas aldeias.
Uma tradição já em desaparecimento
O texto contém duas indicações cronológicas importantes:
- o traje teria sido usado regularmente «até há poucos anos»;
- em 1919 ainda aparecia na cidade «um ou outro velho» com o seu fato tradicional.
Isto significa que, quando o artigo foi publicado, o uso quotidiano já estaria em declínio. O jornal não esclarece, porém, quantos anos tinham decorrido desde que o traje começara a ser abandonado.
Não é seguro concluir que desapareceu numa determinada década. A passagem permite apenas afirmar que a transformação era recente na memória do autor e que, em 1919, alguns homens idosos ainda conservavam o vestuário.
A referência aos mais velhos também mostra que o abandono não ocorreu de forma imediata. As gerações mais novas teriam adotado progressivamente outros modelos, enquanto alguns habitantes idosos continuaram a usar o traje com que se identificavam.
Um traje sobretudo masculino
O jornal afirma que o fato era usado pelos habitantes, «especialmente os homens».
Esta formulação merece atenção. O texto não declara que o burel fosse exclusivamente masculino, mas a descrição apresentada — calção de alçapão, polainas, jaleca, colete e capote — corresponde claramente a um traje de homem.
O artigo não fornece qualquer descrição específica do vestuário feminino da Aldeia do Carvalho. Também não permite saber se as mulheres possuíam alguma característica própria ou se seguiam os modelos comuns às restantes povoações da região.
Assim, a notícia constitui uma fonte muito valiosa para o traje masculino, mas não deve ser utilizada para reconstruir o vestuário feminino local.
O valor e os limites do testemunho
O artigo do Arauto da Beira não é um estudo etnográfico sistemático. É uma notícia curta, sem fotografias, desenhos ou identificação das pessoas observadas.
Não informa:
- quando começou a usar-se aquele traje;
- se todas as peças eram feitas de burel;
- quem as produzia;
- quais eram as suas cores;
- qual era o material dos botões;
- se existiam diferenças entre trabalhadores agrícolas, pastores, industriais ou outros grupos;
- se o traje era usado diariamente ou sobretudo em deslocações, festas e ocasiões especiais.
Apesar destas limitações, o documento possui grande valor histórico por ter sido escrito numa época em que o traje ainda podia ser observado. O ‘jornalista’ afirma ter visto homens idosos da Aldeia do Carvalho entrarem na cidade com o seu «clássico fato», o que aproxima a notícia de um testemunho contemporâneo e não apenas de uma recordação distante.
