Em 1395, durante o reinado de D. João I, a Aldeia do Carvalho surge num levantamento dos bens e rendimentos pertencentes à Coroa no termo da Covilhã.
O registo encontra-se no Tombo da Comarca da Beira, no fólio 74 verso, e constitui, até ao momento, a mais antiga referência escrita conhecida e inequívoca à povoação.

«A el Rey na aldea do carualho termo da dita vila de couilha huu chao…»
Em português atual:
Ao rei pertencia, na Aldeia do Carvalho, termo da vila da Covilhã, um terreno.
Um terreno do rei, não toda a aldeia
O documento não afirma que toda a Aldeia do Carvalho pertencesse ao rei. Regista apenas um “chão”, isto é, uma parcela concreta de terreno pertencente à Coroa.
À sua volta existiam propriedades particulares, terras pertencentes à confraria local e uma via identificada como carreira do concelho. A aldeia apresentava, portanto, uma paisagem agrícola e fundiária já organizada no final do século XIV.
Os proprietários vizinhos
O terreno régio confrontava com terras de:
- Martim Anes, identificado como sendo do próprio lugar;
- Domingos Domingues de Moreira;
- Catalinha Esteves;
- António Peres;
- novamente Martim Anes;
- a mulher de Vasco Peres;
- a confraria da povoação.
A expressão «Martim Anes do dito lugar» permite identificar um dos habitantes ou proprietários mais antigos conhecidos da Aldeia do Carvalho.
O facto de Martim Anes aparecer duas vezes poderá significar que possuía diferentes parcelas confinantes com o terreno do rei.
A confraria já possuía terras
Uma das confrontações era:
«terra da confraria do dito logo»
Isto demonstra que, em 1395, já existia uma confraria na Aldeia do Carvalho e que esta possuía património fundiário próprio.
O documento não identifica a sua invocação religiosa. Não é, por isso, possível afirmar que fosse já uma das posteriores Confrarias. A existência de uma instituição comunitária proprietária de terras mostra, contudo, que a povoação se encontrava organizada antes da elaboração do tombo.
Uma carreira do concelho
O terreno confrontava igualmente com a:
«careyra do concelho»
A carreira seria um caminho ou via de utilização pública, reconhecida ou administrada pelo concelho da Covilhã.
Num único parágrafo, o documento revela:
- uma propriedade régia;
- terrenos particulares;
- uma confraria proprietária;
- moradores identificados;
- uma via concelhia;
- exploração agrícola.
Figueira, castanheiro e linhaça
No chão pertencente ao rei existiam:
- uma figueira córega, segundo a leitura do manuscrito;
- um castanheiro;
- outro elemento atualmente ilegível devido ao estado do documento.
O terreno tinha capacidade para receber a sementeira de:
um alqueire de linhaça

Neste contexto, o alqueire não corresponde necessariamente a uma medida exata de superfície. Indica a quantidade de semente necessária para cultivar o terreno.
A referência comprova que a linhaça e o linho faziam parte da agricultura local no final da Idade Média. Em 1734, cerca de três séculos e meio depois, o linho continuava a ser mencionado entre os produtos da Aldeia do Carvalho.


Maceração (também chamada de “curtimenta” ou “alagamento”)
https://www.saberfazer.org/research/2017/7/6/macerar-o-linho
Arrendado por trinta anos
O terreno encontrava-se arrendado a:
Martim Peres, peliteiro da Covilhã
O contrato tinha a duração de trinta anos, mediante o pagamento anual de:
cinco soldos de moeda antiga
O peliteiro era um artesão ligado à preparação e ao comércio de peles. Nos fólios seguintes, Martim Peres aparece associado também ao arrendamento de propriedades régias no Teixoso e em Carapatelo, mostrando a existência de relações económicas entre estas localidades e a vila da Covilhã.
Transcrição do documento
A el Rey na aldea do carualho termo da dita vila de couilha huu chao que parte com terra de Martim Anes do dito logo e com Domingos Dominguez de Moreyra e com Catalinha Estevez e com Antonio Perez e com Martim Anes sobredito e com terra da confraria do dito logo e com terra da molher de Vasco Perez e pela careyra do concelho, no qual chao esta hua figeyra coryga e huu castinheiro e huu [elemento ilegível]. Leuara em semeadura j alqueire de linhaça. O qual chao foy arendado por xxx annos pelo dito Roy Perez a Martim Perez peliteiro de Couilha por v soldos em cada huu anno de moeda antiga.
D. João I e o contexto do documento
O tombo foi elaborado durante o reinado de D. João I, conhecido como o Mestre de Avis e fundador da dinastia de Avis.
O retrato utilizado para ilustrar este contexto é uma representação de autor desconhecido, datada do século XV e conservada no Museu Nacional de Arte Antiga.

O que este documento representa
O ano de 1395 não corresponde à fundação da Aldeia do Carvalho. A existência de moradores, propriedades delimitadas, uma confraria proprietária e uma carreira do concelho indica que a comunidade já estaria estabelecida anteriormente.
O documento representa o primeiro momento atualmente conhecido em que o nome da povoação foi registado por escrito:
«aldea do carualho»
É, por isso, um dos documentos mais importantes para a história medieval da atual Vila do Carvalho.
Fonte documental e Referências
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Contos do Reino e Casa, Núcleo Antigo, n.º 292
Tombo da Comarca da Beira
Fólio 74v
Código de referência: PT/TT/CRC/A/1/292
Referências consultadas:
Vicente, Maria da Graça (2015). Povoamento e Propriedade.
Entre o Zêzere e o Tejo (séc. XII-XIV). Lisboa: Edições Colibri/
Academia Portuguesa da História, 384 pp., ISBN 978-989-689-
552-5.
FREIRE, Anselmo Braamcamp — «Tombo da comarca da Beira (1395)», Archivo Historico Portuguez, vol. X, Lisboa, 1916, pp. 209–366;
Blogue Covilhã — Subsídios para a sua História, baseado no legado documental de Luiz Fernando Carvalho Dias.
Transcrição paleográfica do fólio: da responsabilidade do autor deste artigo.

