“Os lanifícios da Aldeia do Carvalho atravessaram o Atlântico para integrar a representação oficial portuguesa na primeira Exposição Universal realizada nos Estados Unidos da América.”

Uma descoberta que revela a dimensão internacional da indústria da Aldeia do Carvalho
A história industrial da Aldeia do Carvalho continua a revelar episódios pouco conhecidos, mas de enorme significado.
Entre a documentação consultada surgiu uma referência que confirma que uma das fábricas de lanifícios da freguesia integrou a representação oficial portuguesa na Exposição Internacional de Filadélfia, realizada em 1876, nos Estados Unidos da América.
Trata-se da fábrica Custódio & Silva, instalada na Aldeia do Carvalho, então freguesia do concelho da Covilhã, cuja participação ficou registada no Portuguese Special Catalogue, o catálogo oficial preparado por Portugal para aquele certame internacional.
Mais do que uma simples curiosidade, este documento demonstra que os tecidos produzidos na Aldeia do Carvalho eram considerados representativos da indústria portuguesa, ao ponto de integrarem a delegação nacional num dos maiores acontecimentos industriais do século XIX.
Participar numa Exposição Universal significava muito mais do que expor produtos. Estas exposições constituíam as maiores montras internacionais da indústria, da ciência e da tecnologia do século XIX. Apenas empresas consideradas representativas da produção nacional integravam as delegações oficiais dos respetivos países.
A primeira Exposição Universal realizada nos Estados Unidos

Fonte: Exposição Internacional de Philadelphia (1876). Gravura publicada pelo Imperial Instituto Artístico, Rio de Janeiro.
A Centennial International Exhibition decorreu entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, em Fairmount Park, na cidade de Filadélfia.
A exposição foi organizada para celebrar o centenário da assinatura da Declaração da Independência dos Estados Unidos.
Foi a primeira Exposição Universal realizada em solo americano e reuniu cerca de 31 000 expositores, provenientes de aproximadamente 37 países, recebendo perto de 10 milhões de visitantes.
Na época, estes certames constituíam a maior montra mundial da inovação.
Ali apresentavam-se as mais recentes máquinas industriais, descobertas científicas, produtos agrícolas, obras de arte e manufaturas de todo o mundo.
Foi precisamente nesta exposição que Alexander Graham Bell deu a conhecer o telefone a um público internacional, enquanto outras inovações tecnológicas marcaram uma nova etapa da Revolução Industrial.
As exposições universais funcionavam simultaneamente como centros de comércio, propaganda económica e afirmação nacional, permitindo aos países demonstrar o seu nível de desenvolvimento industrial.
Portugal em Filadélfia

português – (“The Centennial – Balloon view of the grounds,” 1876 e Gardner, 1876; ©MBPastor)
PASTOR, Bruno – Os lanifícios portugueses na Exposição Universal de Filadélfia de 1876. Dissertação de Mestrado. Universidade Católica Portuguesa, 2023. Disponível no Repositório Institucional Veritati
Portugal participou oficialmente através de uma comissão nomeada pelo Governo, que publicou um catálogo destinado aos visitantes da exposição.

Fonte: International Exhibition, 1876 at Philadelphia – Portuguese Special Catalogue. Digitalização da New York Public Library.
Esse documento, intitulado Portuguese Special Catalogue, organizava os expositores portugueses pelos seguintes departamentos:
- Minas e Metalurgia;
- Manufaturas;
- Educação e Ciência;
- Belas-Artes;
- Máquinas.
Foi precisamente na secção dedicada às Manufaturas que figurou a fábrica Custódio & Silva.
O catálogo constitui hoje uma fonte histórica de enorme valor, sendo considerado por investigadores um verdadeiro “microinquérito industrial”, porque descreve para cada fábrica dados como:
- potência motriz;
- número de trabalhadores;
- matérias-primas;
- produção;
- mercados;
- maquinaria utilizada.
A fábrica Custódio & Silva

Inventário histórico das fábricas de lanifícios do concelho da Covilhã. A lista identifica várias unidades industriais sediadas na Aldeia do Carvalho, entre elas Custódio & Silva, João de Barros e Espiga Barata & Companhia, evidenciando a importância da freguesia como núcleo industrial na segunda metade do século XIX.
Fonte: Almanach Commercial de Lisboa (1887)
O catálogo oficial identifica a empresa como:
Custodio & Silva – Covilhan
A designação “Covilhan” refere-se naturalmente ao concelho.
Contudo, outro documento contemporâneo elimina qualquer dúvida quanto à localização exata da fábrica.
O Almanach Commercial de Lisboa identifica expressamente:
“Fabrica de Custodio & Silva, séde na Aldeia do Carvalho, fundada em 1876, capital 30:000$000 réis.”
Esta é uma prova documental inequívoca de que a empresa tinha a sua sede na Aldeia do Carvalho.
O que a fábrica apresentou em Filadélfia

Segundo o catálogo oficial, a empresa expôs:
- Woollen Cloths (panos de lã);
- Flannels (flanelas);
- Cheviots (tecidos de lã do tipo cheviote).
Tratava-se de alguns dos produtos de maior importância da indústria portuguesa de lanifícios da época.
Uma indústria moderna
O catálogo fornece ainda uma descrição bastante completa da fábrica.
Sabemos que utilizava:
motor hidráulico de 14 cavalos de potência, aproveitando a força das águas da ribeira da Lapa que atravessa a Aldeia do Carvalho para movimentar a maquinaria fabril.
maquinaria destinada à preparação, tecelagem, fiação e tinturaria dos tecidos.
Empregava:
- 38 homens;
- 16 mulheres;
- 35 crianças.
No total:
89 trabalhadores
Os salários semanais variavam entre 600 réis e 2$500 réis para os homens, 360 a 600 réis para as mulheres e 180 a 300 réis para as crianças, refletindo a organização do trabalho industrial da época.
Utilizava lã de origem portuguesa e espanhola.
O custo anual da matéria-prima ascendia a:
18:000$000 réis
A produção anual era avaliada em:
22:000$000 réis
Estes números mostram que não se tratava de uma pequena oficina artesanal, mas de uma unidade industrial mecanizada com dimensão relevante para os padrões portugueses da época.
Entre as principais fábricas portuguesas
Uma investigação recente sobre os lanifícios portugueses presentes em Filadélfia demonstra que Portugal apresentou 40 expositores do setor têxtil.
Destes, apenas 33 participaram efetivamente, sendo que apenas dez correspondiam a verdadeiras unidades industriais mecanizadas.
Entre elas figurava precisamente:
Custódio & Silva (Covilhã).
A fábrica surge ainda representada no estudo comparativo das principais unidades industriais portuguesas presentes na exposição, com os mesmos 89 trabalhadores indicados pelo catálogo oficial.
Este dado confirma que a fábrica da Aldeia do Carvalho integrava o núcleo das empresas portuguesas mais importantes do setor dos lanifícios presentes naquele certame internacional.
A Aldeia do Carvalho: um importante centro industrial
O Almanach Commercial de Lisboa permite compreender melhor a importância industrial da freguesia.
Na mesma lista aparecem várias fábricas sediadas na Aldeia do Carvalho:
- João de Barros;
- Custódio & Silva;
- Espiga Barata & Companhia.
Um estudo académico sobre a indústria de lanifícios da Covilhã confirma igualmente estas fábricas como pertencentes à Aldeia do Carvalho.
Tudo indica que, durante a segunda metade do século XIX, a freguesia constituía um dos polos industriais da região serrana.
Um motivo de orgulho para a Aldeia do Carvalho
Mais de cento e quarenta anos depois, esta documentação permite recuperar um episódio praticamente esquecido da história da freguesia.
Enquanto milhares de visitantes percorriam os pavilhões da Exposição Universal de Filadélfia para conhecer os mais recentes avanços da indústria mundial, também ali estavam expostos tecidos produzidos na Aldeia do Carvalho.
É um testemunho do dinamismo económico da freguesia e da qualidade da sua indústria de lanifícios, que conseguiu integrar a representação oficial portuguesa num dos mais importantes acontecimentos internacionais do século XIX.
Esta descoberta acrescenta mais uma página à história da Aldeia do Carvalho e demonstra que o seu património industrial merece ser conhecido, preservado e divulgado.
