Epidemias, mortalidade infantil e a rota serrana da lã
O ano de 1883 ficou marcado por uma violenta vaga epidémica que atingiu a Serra da Estrela e os concelhos ligados à indústria dos lanifícios, provocando numerosas mortes entre populações pobres, operários fabris, tecelões e crianças.

Créditos: Hulton Archive/Getty Images
Um importante estudo de António dos Santos Pereira, da Universidade da Beira Interior, publicado na Revista Online do Museu de Lanifícios da UBI, permite hoje compreender melhor a dimensão humana desta tragédia sanitária no território da antiga Aldeia do Carvalho.
O primeiro foco de contágio

entre o tifo, a varíola e outras epidemias,
ANTÓNIO DOS SANTOS PEREIRA
Segundo o investigador:
“Tudo indica que este vírus atingiu o espaço serrano a partir do quartel do destacamento militar estacionado, junto à Praça, na freguesia de Santa Maria, em Manteigas.”
O primeiro caso identificado teria sido:
“Francisco Luís, soldado da terceira companhia, n.º 43 de Infantaria, natural de Aldeia do Carvalho, que faleceu pelas dezanove horas e trinta minutos do dia 31 de janeiro de 1883.”
A epidemia de “bexigas” — designação popular frequentemente associada à varíola — propagou-se depois rapidamente pelos territórios serranos ligados aos circuitos humanos e comerciais da lã.
A rota da lã e da doença
Na segunda metade do século XIX, a Aldeia do Carvalho encontrava-se profundamente integrada:
- na economia dos lanifícios,
- nos circuitos de circulação serrana,
- no trabalho fabril da Covilhã,
- e nos movimentos constantes entre aldeias, fábricas, oficinas e zonas pastoris.
A circulação de: operários,
- soldados,
- almocreves,
- tecelões,
- pastores,
- mulheres de serviço,
- e expostos acolhidos,
favorecia também a rápida propagação das doenças contagiosas.
O estudo refere surtos associados:
- à varíola (“bexigas”),
- ao tifo,
- e a outras enfermidades epidémicas que atingiram duramente as populações mais pobres.
Operários e tecelões da Aldeia do Carvalho que perderam filhos
Um dos quadros mais impressionantes do estudo apresenta famílias da antiga Aldeia do Carvalho que perderam crianças durante o ano de 1883.
Entre os casos identificados surgem:
- tecelões,
- operários fabris,
- domésticas,
- trabalhadores ligados à indústria da lã,
- e famílias residentes em lugares como:
- Lajes,
- Direita,
- Castelo,
- Amoreira,
- Quinta do Pouso,
- Quinta das Calvas,
- Estrada,
- ou Quinta de São Domingos.
A mortalidade infantil era devastadora.
Muitas crianças faleciam:
- com poucos meses de idade,
- recém-nascidas,
- ou antes dos quatro anos.
O quadro revela igualmente a forte ligação entre a industrialização covilhanense e as aldeias serranas envolventes, onde viviam muitos operários e tecelões ligados às fábricas de lanifícios.
A dureza da vida serrana no século XIX
Este episódio recorda uma realidade frequentemente esquecida:
a extrema fragilidade das populações serranas perante a doença durante o século XIX.
Num tempo:
- sem antibióticos,
- sem vacinação generalizada,
- com fracas condições sanitárias,
- elevada pobreza,
- e forte promiscuidade habitacional,
as epidemias podiam devastar rapidamente famílias inteiras.
Por detrás dos números e tabelas permanecem histórias humanas de:
- pais,
- mães,
- crianças,
- operários,
- soldados,
- e trabalhadores serranos,
que viveram entre a montanha, os lanifícios e a constante ameaça da doença.
📚 A morte em 1883: na rota da lã e dos expostos da Covilhã,
entre o tifo, a varíola e outras epidemias
Death in 1883: on the route of wool and of the Covilhã underprivileged, between typhus, smallpox and other epidemics
https://www.ubimuseum.ubi.pt/n05/assets/docs/15.pdf?
ANTÓNIO DOS SANTOS PEREIRA
Universidade da Beira Interior
University of Beira Interior

