Avesseiros / Aviceiros / Cova do Picouto

Durante séculos, os antigos caminhos serranos que ligavam Seia, Manteigas, Aldeia do Carvalho e a Covilhã constituíram algumas das mais importantes vias de circulação humana e comercial da Serra da Estrela. Por estes trilhos de montanha passavam almocreves, fabricantes, comerciantes, pastores e viajantes, transportando lanifícios, correspondência, mercadorias e géneros entre os vales da Cova da Beira e as povoações serranas.

Mas estes percursos, especialmente durante o rigoroso Inverno serrano, eram também locais isolados e por vezes perigosos.

Foi precisamente num desses antigos caminhos, na chamada Cova do Picouto, em direcção à villa de Manteigas, que ocorreu um dos episódios mais sombrios documentados na imprensa regional oitocentista.

Em 17 de Fevereiro de 1865, a Gazeta de Braga publicava uma notícia intitulada “Horrivel assassinato”, relatando o aparecimento de um cadáver encontrado a 28 de Janeiro daquele ano, num local ermo da Serra da Estrella.

Gazeta de Braga N.º 024 de 17/02/1865

Segundo os relatos da época, o corpo apresentava-se “no mais terrível estado de desfiguração”. A descrição publicada nos jornais refere que a cabeça se encontrava quase separada do tronco, existiam profundas feridas no corpo, fracturas nas costelas e graves mutilações num dos braços. A cavalgadura que acompanhava o viajante apareceu igualmente morta a curta distância.

A vítima foi identificada através de um fragmento de letra encontrado junto ao cadáver. Tratava-se de Bernardo Mendes Loureiro, natural de Santa Marinha (Paços da Serra) Seia, casado com Maria da Glória, pai de dois filhos e filho dos fabricantes Joaquim Loureiro e Antónia de Jesus.

Os jornais descrevem Bernardo como um homem ligado aos circuitos comerciais e industriais da região, percorrendo os antigos caminhos da Serra da Estrela provavelmente em deslocação entre povoações serranas e centros industriais da Beira Interior. Transportava consigo correspondência, documentos e outros bens, incluindo papéis relacionados com uma firma de Lisboa (letra), circunstância que rapidamente alimentou suspeitas de roubo.

O Comércio do Porto – Ano XII – nº33 – 10 de Fevereiro

A descrição do vestuário permite igualmente imaginar a dureza destas travessias oitocentistas pela montanha. Bernardo envergava roupas pesadas adequadas ao frio serrano: casaco escuro grosso, colete, botas altas e capa espessa, traje característico dos viajantes e almocreves que percorriam estes difíceis caminhos de montanha.

Embora algumas hipóteses levantassem a possibilidade de acidente provocado pela violência do terreno e pelas condições atmosféricas extremas da serra, a imprensa da época referia claramente “fortes suspeitas” de homicídio.

O corpo acabaria por ser transportado para Aldeia do Carvalho, onde foi sepultado. O assento de óbito n.º 8 de 1865, existente no livro paroquial da freguesia, confirma o sucedido e refere o local da ocorrência como “Avesseira” ou “Aviceira”, topónimo hoje praticamente desaparecido da memória local.

Assento de Óbito nº 8 – Livro de Óbitos da freguesia de Aldeia do Carvalho para o ano de 1865

Mais de 160 anos depois, este episódio permanece como um impressionante testemunho da dureza dos antigos caminhos serranos da Serra da Estrela e da vida dos homens que os percorriam diariamente entre Manteigas, Aldeia do Carvalho e a Covilhã.

📜 Fontes históricas:
Gazeta de Braga — 17 Fevereiro 1865
O Comércio do Porto — 10 Fevereiro 1865
• Livro de Óbitos de Aldeia do Carvalho — 1865